Lucro recorde e cobertura em queda: o que mostram os balanços do 2T26?

Toda temporada de divulgação de balanços segue o mesmo ritual: manchete de lucro recorde, ROE comemorado, ação reagindo na Bolsa. E, ano após ano, um detalhe some do resumo executivo: o quanto os bancos estão, na prática, apostando que vão precisar de menos dinheiro guardado para cobrir o que não vai voltar. Nos balanços do 2T26 (vulgo 2º trimestre de 2026), esse detalhe ficou grande demais para ignorar.

Bradesco lucrou R$ 7,05 bilhões, alta de 16,2% em um ano. Itaú, R$ 12,3 bilhões, novo recorde trimestral. Números bonitos, não é mesmo? 

Só que, olhando nas entrelinhas, o que se vê é inadimplência subindo em praticamente todos os bancões. Em paralelo, o colchão de provisão que deveria cobrir essa piora ficando, em vários casos, mais fino, e não mais grosso. 

É esse descompasso que eu gostaria de detalhar aqui, neste artigo, porque ele não é só uma curiosidade de analista de ações, é também o termômetro mais confiável que temos hoje sobre o volume de recuperação de crédito que vai chegar na nossa mesa nos próximos trimestres.

Balanços do 2T26: os números lado a lado

Para ilustrar melhor a situação, reuni os principais indicadores dos quatro maiores bancos do país no 2T26. O Banco do Brasil ainda não havia divulgado o resultado até o fechamento deste artigo, mas as projeções de mercado já sinalizavam o tom do trimestre.

Lucro recorde e cobertura em queda: o que mostram os balanços do 2T26?
*Cobertura: Bradesco = índice de cobertura total (provisões / carteira em atraso); Santander = cobertura de créditos em estágio 3. Métricas não são diretamente comparáveis entre bancos, mas a direção da variação (queda) é o que importa aqui.

A cobertura que encolhe

Analisando banco a banco, caso a caso.

Banco Bradesco

Vamos começar pelo Bradesco. O índice de cobertura (o quanto a provisão constituída cobre da carteira em atraso) caiu de 177,8% para 152,3% em doze meses, justamente no trimestre em que a inadimplência acima de 90 dias avançou para 4,3%. Ou seja: mais devedores em atraso. O banco, por sua vez, decidiu não acompanhar essa piora com o mesmo ritmo de provisionamento do ano passado.

Banco Santander

No Santander, o quadro é parecido, só que mais explícito. A inadimplência acima de 90 dias ficou “estável” em 3,3% no trimestre. Apesar disso, analistas do JPMorgan e do Goldman Sachs apontaram que essa estabilidade é um efeito óptico: o banco acelerou baixas a prejuízo (write-offs) por causa de um novo critério de recuperabilidade. Sem esse ajuste contábil, o indicador teria subido para algo perto de 3,6%. A cobertura de créditos em estágio 3, de quebra, caiu de 67,6% para 65%.

Banco Itaú

O Itaú é a exceção que confirma a regra: inadimplência acima de 90 dias parada em 1,9% pelo sexto trimestre seguido, com carteira crescendo 9,6%. Essa situação é a prova de que dá para crescer com qualidade, mas também mostra o tamanho do gap entre quem está de fato controlando risco e quem está gerenciando a aparência do risco.

Banco do Brasil

Por fim, o Banco do Brasil deve fechar essa fotografia com a pior das cores. A carteira rural, que representa aproximadamente 50% da carteira total, castigada por clima e atraso de pagamento, deve levar as provisões (PDD) a superarem R$ 20 bilhões no trimestre. O Goldman Sachs estima que o banco já deve ter consumido 65% do teto do próprio guia de provisões só no primeiro semestre.

O que esse cenário  representa para a economia

O pano de fundo desses balanços é uma economia com 83,5 milhões de consumidores negativados e com um elevadíssimo comprometimento de renda das famílias, que compõem o pior quadro de qualidade de ativos entre os principais mercados da América Latina, segundo o UBS BB. Trata-se de um problema estrutural, e não de um banco específico.

Quando o setor bancário decide, coletivamente, provisionar menos e de maneira proporcional ao risco que carrega, e ainda assim manter o lucro em alta via corte de despesas, eficiência operacional e seletividade na concessão, ele está transferindo para trimestres futuros (e para as operações de recuperação) a conta que não fechou agora. 

É uma escolha de gestão de resultado no curto prazo. Legítima, mas com consequência direta pra quem trabalha do outro lado da régua.

A evolução da inadimplência: o Over90

Quando olhamos para a evolução da inadimplência, vemos em alguns bancos uma certa estabilidade, o que mostra de alguma forma a justificativa na reversão da cobertura, especialmente quando entramos no segundo semestre, em que a tendência é exatamente uma previsão de queda. 

No gráfico a seguir vemos a preocupação com o Banco do Brasil, que mais uma vez sofre por conta de sua carteira de agro. Além disso, o Santander aparece com um crescimento no 3º e 4º trimestres de 2025, com redução e posterior estabilidade nos dois últimos trimestres. Apesar disso, se olharmos para a linha do Bacen, ela mostra um crescimento e um recorde, considerando desde o início da série histórica, iniciada em 2011.

Lucro recorde e cobertura em queda: o que mostram os balanços do 2T26?

O que muda na sua operação de cobrança

  • Volume represado: Coberturas em queda tendem a anteceder ciclos maiores de cessão de carteiras. Ou seja: bancos que provisionam menos hoje têm menos margem para segurar ativo problemático internamente amanhã.
  • PJ e agro no radar: A deterioração do cenário no Banco do Brasil é concentrada em rural; se a sua operação atende esse segmento, o fluxo de entrada tende a crescer nos próximos dois a três trimestres.
  • Cuidado com o “estável” que não é estável: O caso Santander mostra que indicadores parados podem esconder aceleração de write-off. Vale, então, cruzar NPL com volume de baixa a prejuízo antes de confiar no número isolado.
  • Pressão por eficiência vai bater na cobrança: Bancos fechando agências e headcount (o Bradesco já reduziu de 5,2 mil para 4,1 mil unidades em um ano) tendem a terceirizar e intensificar a régua digital, o que se mostra uma boa oportunidade para quem já tem escala e tecnologia.
  • Cobrar das equipes a coisa certa: Uma mudança que venho trazendo ultimamente é: o que bancos e financeiras andam “cobrando” de suas equipes de cobrança? É hora de colocar mais um indicador na lista de prioridades de verdade: a PDD! Antes, clientes em uma mesma faixa de atraso tinham basicamente a mesma provisão, mas com a Resolução 4.966 isso mudou; e, com essa mudança, o método de pagamento de comissões para a cobrança terceirizada poderia também mudar, se pagando e priorizando o total de provisão que cada contrato possui. 

Mas, por outro lado

Vale aqui o entendimento de que nenhum desses bancos está em situação de solvência ameaçada — aliás, muito pelo contrário! Os quatro seguem entre as instituições mais rentáveis do mundo em ROE. Cobertura caindo de um patamar historicamente muito alto para outro ainda confortável não é, por si, sinal de crise. 

Além disso, o Itaú prova que crescimento com qualidade de carteira ainda é possível neste ciclo, o que evita uma “contaminação” de todo o setor, balizando pelo pior caso. 

Também é preciso separar decisão técnica (novos critérios de recuperabilidade, mudança de metodologia) de deterioração real de risco, pois nem toda queda de cobertura é sinal de alarme, sendo que uma parte disso pode ser considerado ruído contábil trimestral.

Quem absorve a conta da provisão?

No fim das contas, o balanço trimestral de um banco é uma fotografia, e quem lida com o filme como um todo é a régua de cobrança. O que sobra depois que o lucro já foi anunciado e a provisão insuficiente precisa ser complementada pelo trabalho de recuperação. 

Os próximos dois trimestres vão mostrar se essa aposta das instituições em segurar cobertura para sustentar rentabilidade foi prudência ou miopia. De qualquer forma, quem está na ponta da recuperação de crédito já sabe: quando o banco provisiona menos, é a operação de cobrança que absorve a diferença.

Se você quer entender como transformar esse cenário macro em estratégia prática de régua e priorização de carteira, é exatamente esse tipo de leitura que discutimos a fundo dentro do G360, nosso programa de desenvolvimento contínuo para quem vive o dia a dia de crédito e cobrança no Brasil.

Construindo o futuro do crédito e cobrança

O mercado continuará mudando: novas tecnologias surgirão, novas práticas ganharão espaço e novos desafios exigirão adaptação constante. Mas existe uma característica comum entre as operações que lideram o setor: elas nunca param de evoluir.

Foi com essa visão que construímos o G360, um ambiente de desenvolvimento contínuo para profissionais, líderes e empresas de crédito e cobrança

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Eduardo Tambellini
Eduardo Tambellini
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