Fim do Desenrola 2.0. Será que da inadimplência também?

Faz pouco mais de dois meses que escrevi aqui sobre o Desenrola 2.0 e levantei uma dúvida que, confesso, não me deixou muito otimista: será que esse remédio vai tratar a doença ou só vai aliviar o sintoma de novo? O fim do Desenrola 2.0 está perto. O Congresso já prorrogou o prazo até 14 de setembro, e essa prorrogação já leva em conta a pausa do recesso legislativo. Então, é hora de olhar para os números e ver, com dados na mesa, se a minha desconfiança fazia sentido.

Vou adiantar aqui a pimenta deste artigo de hoje: o Desenrola 1.0 também renegociou muito, também tirou muita gente do vermelho, e mesmo assim o número de negativados no Brasil nunca parou de subir depois que o programa acabou. Vamos procurar entender os motivos desse cenário, e o que isso significa para quem trabalha do outro lado do balcão, cobrando.

Além disso, publiquei um vídeo em meu canal há pouco tempo, em que comparo Brasil e América Latina no quesito inadimplência, e nessa discussão eu levanto 3 itens em que somos campeões: juros, endividamento e a cultura de renegociação e descontos em dívidas. 

Fica aqui aquele questionamento que ficou famoso por conta de uma publicidade: o juros é alto porque a inadimplência é alta? Ou a inadimplência é alta porque o juros é alto? Ou seja: será que hoje o cliente atrasa porque sabe que vai ter um desconto lá na frente?

Fique comigo nessa reflexão!

Fim do Desenrola 2.0: o que os dados mostram até agora

Em menos de três meses de operação, o Desenrola 2.0 já negociou R$ 44,7 bilhões em dívidas, o que equivale a 84% de tudo o que o Desenrola 1.0 movimentou ao longo de dez meses inteiros, entre julho de 2023 e meados de 2024. 

Se o ritmo se mantiver até 14 de setembro, é bem provável que o novo programa feche superando o total do antecessor, e em menos da metade do tempo.

Somando as frentes de Fies, empresas e rural, o volume renegociado já passa de R$ 41,6 bilhões. Cerca de 7,5 milhões de famílias foram beneficiadas e, segundo o Ministério da Fazenda, mais de 4,9 milhões de brasileiros já saíram dos cadastros de inadimplência com descontos médios de 80% a 85%. 

O uso do FGTS, uma das grandes novidades desta edição, ainda engatinha: apenas R$ 55,5 milhões do fundo foram usados por cerca de 97 mil trabalhadores, diante de um limite de R$ 8,2 bilhões liberado pelo governo — menos de 1% do teto.

A pimenta: o que aconteceu depois do Desenrola 1.0

É aqui que a história começa a ficar interessante. Durante o Desenrola 1.0, o número de negativados no país se manteve relativamente estável, subindo de 71,9 milhões para 72,6 milhões entre maio de 2023 e setembro de 2024 — uma variação pequena, de 45% para 44,9% da população adulta. Ou seja, o programa, na pior das hipóteses, conseguiu segurar a bola por um tempo.

O problema é o que veio depois. Assim que o Desenrola 1.0 encerrou, a inadimplência voltou a acelerar, e não parou mais. Em fevereiro deste ano, a Serasa registrou 81,7 milhões de CPFs negativados, um recorde histórico e alta de 38,1% em dez anos. 

E continua: em março, 82,8 milhões de negativados, com 15 meses seguidos de recordes. Em abril, já eram 83,3 milhões, o 16º mês consecutivo de alta. E note bem: os dados de abril aparecem depois do lançamento do Desenrola 2.0. Isto é, mesmo com um programa de renegociação em massa rodando, a curva de inadimplência não deu sinal de trégua.

No fim, essa conta não fecha para o lado do otimismo: o programa tira gente do vermelho pela porta da frente, mas o país continua colocando gente lá dentro pela porta dos fundos, em um ritmo de escalada no mínimo igual.

Afinal, por que isso se repete?

Esse ciclo é interminável não porque se trata de obra do acaso, mas sim puramente de estrutura. Uma dívida que já estava provisionada como perda no balanço de um banco, ou seja, contabilmente já dada como perdida, volta a ser um ativo quando é renegociada. Isso é ótimo para o balanço da instituição financeira, mas não resolve a causa do endividamento da família.

Some-se a isso um cenário de juros que segue restritivo (o Boletim Focus projeta a Selic ainda perto de 12,5% no fim de 2026), uma renda comprometida em nível recorde (49,9% em fevereiro, segundo o Banco Central) e um dado de reincidência que já trouxe aqui antes: 42% dos brasileiros inadimplentes hoje já estavam negativados há dez anos. 

Programas de renegociação em massa aliviam o sintoma agudo, mas não mexem na causa crônica. É exatamente o ponto que eu já havia levantado no artigo sobre o lançamento do Desenrola 2.0, e os números de hoje só reforçam essa leitura.

O que isso muda na régua de cobrança

  • Prepare a operação para o retorno dos inadimplentes: Historicamente, uma fatia relevante de quem renegocia via programas como este volta a atrasar depois de alguns meses. Por isso, a régua precisa estar pronta para abordar novamente esse público sem tratá-lo como cliente “resolvido”.
  • Diferencie quitação à vista de refinanciamento: Dentre as operações do Desenrola 2.0, boa parte é refinanciamento com juros baixos, não quitação. Ou seja: o crédito continua na carteira, só que reprecificado e com prazo mais longo.
  • Fique de olho no fim do prazo (14 de setembro): Programas como este costumam gerar um pico de procura na reta final, e depois um vácuo de interesse. Vale, então, antecipar capacidade operacional para os dois momentos.
  • Acompanhe o uso do FGTS: Ainda é baixíssimo, mas é uma ferramenta que pode ganhar tração com argumentos de negociação até o fim do programa.
  • Não presuma carteira “limpa”: O histórico do Desenrola 1.0 mostra que o efeito de redução de negativados tende a ser temporário. O planejamento de cobrança para o pós-programa deveria começar agora, não em outubro.

Mas, por outro lado

Seria injusto encerrar este artigo tendo só batido no programa. Para quem está com o nome sujo, sair da lista de inadimplentes, mesmo que temporariamente, tem valor real: acesso a aluguel, a emprego, a linhas de crédito básicas. 

Os descontos médios de 80% a 85% são generosos e ajudam justamente as famílias de renda mais baixa, que são maioria entre os negativados. E o fato de o programa já ter batido 84% do total do Desenrola 1.0 em um terço do tempo mostra que a adesão é real, não é só marketing.

Também vale registrar que o próprio governo trata o programa como medida excepcional, não permanente, o que sugere que a expectativa oficial nunca foi resolver o problema estrutural da inadimplência, e sim dar um alívio pontual em um momento de endividamento recorde. Se a régua é essa, talvez o programa já esteja entregando o que prometeu, mesmo que a curva de negativados continue subindo por trás dele.

Se você quer entender como estruturar uma régua de cobrança que sobreviva ao efeito ‘sobe e desce’ desses programas de renegociação em massa, é exatamente esse tipo de estratégia que a gente aprofunda na Universidade Tabelando, dentro do G360. 

Toda a experiência que trago aqui vem da prática — e é essa prática que compartilho com quem quer se preparar para o que vem depois do Desenrola.

Eduardo Tambellini
Eduardo Tambellini
Artigos: 54