Selic a 14%: o corte que não chega ao boleto

O Copom cortou a Selic pela quarta vez seguida em 2026. O ciclo de queda começou em março, quando a taxa era de 15% (patamar mantido desde meados de 2025) e, em passos de 0,25 ponto percentual, chegamos ao nível de Selic a 14% ao ano na reunião de 5 de agosto. Nessa esteira, o Boletim Focus já projeta 13,75% até o fim do ano. 

Na teoria, é a notícia que qualquer operação de crédito e cobrança gostaria de ver: juros caindo, fôlego para o consumidor, menos pressão sobre a carteira.

Só que os números do próprio Banco Central contam outra história. No mesmo período em que a Selic caiu quatro vezes seguidas, o juro do cheque especial subiu de 137,3% para 139,8% ao ano entre maio e junho. O crédito pessoal não consignado saltou de 120,3% para 127,3% ao ano no mesmo intervalo. E a taxa média do crédito livre para pessoas físicas avançou de 62,8% para 64,0% ao ano, que é o maior patamar em mais de um ano. A Selic desce, mas boa parte da conta que chega para o consumidor sobe.

A conta que não fecha, mesmo com a Selic a 14%

Esse descolamento não é coincidência nem ruído estatístico, e sim parte da estrutura em que se forma o sistema financeiro. A taxa cobrada do cliente final é a soma de três blocos: 

  • Custo de captação (que acompanha a Selic); 
  • Spread bancário; e 
  • Prêmio de risco individual. 

Quando a Selic cai, o primeiro bloco encolhe. Mas o spread, que embute inadimplência esperada, custos operacionais e margem, segue outra lógica, reagindo à qualidade da carteira ao invés de acompanhar o custo do dinheiro.

A situação da carteira, hoje, justifica um spread mais alto. O spread médio no crédito livre passou de 35,6 para 35,8 pontos percentuais entre maio e junho de 2026, com o segmento de pessoa física puxando a alta. Ou seja: o banco está pagando menos para captar, mas cobrando praticamente o mesmo (ou mais) para emprestar, porque o risco embutido nessa carteira aumentou junto com a inadimplência.

Inadimplência no maior patamar desde 2011

Essa é a peça que fecha a equação. A inadimplência da carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional ficou em 4,7% em junho, correspondendo ao nível mais alto desde o início da série histórica do indicador, em 2011. O comprometimento de renda das famílias com dívidas chegou a 28,5%, também em alta. 

Enquanto isso acontece, qualquer redução da Selic tende a ser absorvida pelo spread antes de chegar ao consumidor final, porque o banco está precificando um risco que, na prática, continua subindo.

Para quem trabalha na ponta da negociação, o efeito prático é direto: o discurso de “os juros estão caindo, é um bom momento para renegociar” perde força quando o devedor abre o extrato do cheque especial ou do crédito pessoal e vê sua taxa maior do que estava há três meses. A narrativa macro e a experiência do consumidor estão desalinhadas, e isso tem consequências para quem faz a régua de cobrança.

O que muda na régua de cobrança?

  • Argumento de urgência: Se o crédito formal está mais caro, a alternativa de “esperar melhorar” perde sentido. Vale reforçar isso na abordagem, com dados, não com pressão.
  • Cuidado com o script automático de “juros em queda”: Citar a Selic sem qualificar antes o contato pode soar dissonante para quem sente o efeito contrário na própria fatura.
  • Priorizar modalidades de renegociação com taxa fixa e parcelas previsíveis: É isso, e não a Selic, que resolve o problema imediato do devedor.
  • Reforçar monitoramento de carteira por faixa de renda: O comprometimento de renda em alta (28,5%) tende a concentrar inadimplência em quem já está no limite, exigindo régua mais granular por perfil de risco.
  • Acompanhar o spread, não só a Selic, como indicador líder de custo de crédito: É ele que dita se a queda da taxa básica vai (ou não) aliviar a carteira de vocês.

Mas, por outro lado

Vale muito qualificar o cenário ao fazer esse tipo de análise. A transmissão da política monetária para o crédito ao consumidor tem defasagem: historicamente, leva alguns meses para um ciclo de corte se refletir nas taxas finais, e o atual ainda está em andamento. 

O segmento de pessoas jurídicas, aliás, já mostra sinais diferentes: a taxa média para empresas recuou de 24,9% para 24,4% ao ano no mesmo período, sugerindo que o afrouxamento monetário está circulando de forma mais rápida onde o risco de crédito é menor e mais bem precificado.

Há também o fator fiscal: o próprio Copom vinculou os próximos passos do ciclo à trajetória da política fiscal, não apenas à inflação. Se esse cenário se resolver de forma favorável, o spread de pessoa física tem espaço para ceder mais rápido do que o histórico recente sugere. Não é uma correção automática, mas também não é uma tese encerrada — o próximo Boletim Focus e a ata da próxima reunião do Copom, em setembro, vão dizer bastante sobre se esse hiato entre Selic e boleto está diminuindo ou se ganhou vida própria.

Já escrevi aqui no blog sobre porque a dívida das famílias cresce mesmo com a Selic em queda. O que os dados de agosto mostram é a segunda parte dessa história: não é só que a dívida cresce apesar da queda, e sim que, em várias modalidades, o custo dela sobe junto. Para quem lidera operação de crédito e cobrança, o recado é o mesmo de sempre: acompanhar o indicador certo importa mais do que acompanhar a manchete certa.

Se sua operação quer transformar esse tipo de leitura em régua de cobrança mais eficiente, é exatamente esse o tipo de aplicação prática que trabalhamos no G360. Quem quiser aprofundar encontra mais no site.

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Eduardo Tambellini
Eduardo Tambellini
Artigos: 57