Sempre digo para as pessoas que a “dupla” de indicadores que mais conversa entre si é inadimplência e Selic, na forma de taxa de juros. Dessa vez, dada a atual conjuntura, essa relação não tem seguido o óbvio.
Os juros estão em queda, o crédito está ficando mais barato e a inflação está perdendo força, mas os números de junho mostram uma história muito diferente de tudo isso: a inadimplência voltou a crescer no Brasil, e o consumidor continua devendo mais a cada mês que passa.
Se você trabalha com cobrança, essa diferença entre a política monetária e o comportamento real do devedor é o dado mais importante da semana. E vale a pena entender por quê! Vem com a gente?
Inadimplência e Selic: o que os números de junho mostram
O Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa trouxe 234 mil novos CPFs negativados em junho, o que representa um avanço de 0,28% no mês. É o dobro do crescimento registrado em maio, quando o indicador havia desacelerado, mas ainda segue como o segundo menor incremento mensal do ano.
Ou seja: a trégua de maio não se sustentou, e o quadro voltou a piorar, ainda que em ritmo mais controlado do que no início de 2026.
Os números absolutos preocupam mais do que a variação percentual. Hoje, 50,9% da população adulta brasileira está com o nome negativado. A maioria dos brasileiros em idade de contrair dívida está devendo. E tem mais:
- O valor médio por consumidor chegou a R$ 6.920,63, o equivalente a quatro salários mínimos.
- No total, são 345,5 milhões de dívidas em aberto, somando mais de R$ 579,5 bilhões.
- Bancos e instituições financeiras seguem concentrando a maior fatia dessas dívidas, com 46,9% do total, seguidos por contas básicas (21,3%) e serviços (11,7%).
Se considerarmos regiões e estados brasileiros, o cenário é quase uniforme: de 27 unidades federativas, apenas 7 registraram queda no volume de negativados em junho. Ou seja: não é um problema concentrado em uma região ou em um segmento específico, e sim um movimento nacional, disseminado, que atravessa perfis de renda e geografia.
Por que a queda da Selic não está aliviando o crédito
Este é o ponto que mais me chama atenção. O Banco Central vem cortando a Selic de forma consistente: depois de passar quase um ano no patamar de 15%, o maior em quase duas décadas, o Copom reduziu a taxa básica para 14,25% em junho, o quarto corte da sequência iniciada neste ano. O boletim Focus projeta a Selic encerrando 2026 perto de 14%, e o mercado já aguarda a próxima decisão do comitê, marcada para 4 e 5 de agosto.
Na teoria, o crédito mais barato deveria aliviar o orçamento das famílias e conter o avanço da inadimplência. Na prática, isso não está acontecendo, e não é a primeira vez.
Quando a Serasa divulgou, em março, o retrato dos últimos dez anos de inadimplência no país, um dado chamou atenção: o endividamento brasileiro cresceu de forma consistente, mesmo em períodos de queda da Selic, o que indica um problema estrutural, não apenas conjuntural.
Além disso, 42% dos brasileiros inadimplentes hoje já carregavam essa condição há uma década, o que corresponde a um contingente de reincidência que nenhum ciclo de corte de juros resolve sozinho.
Em outras palavras: o custo do crédito é só uma parte da equação. A outra parte é o comprometimento de renda, a cultura de uso do crédito como complemento e não como recurso pontual, e um estoque de dívida antiga que segue rolando de mês em mês, independente da taxa básica.
O que a relação entre inadimplência e Selic muda na cobrança
Todos esses números e estatísticas têm representações na sociedade e no mercado, mas é nas operações de cobrança que uma boa estratégia em cima desses dados pode fazer toda a diferença. Acompanhe comigo:
- Estoque crescente e não pontual: Com 50,9% da população adulta negativada, a régua de cobrança precisa lidar com um volume estrutural, não com picos sazonais.
- Ticket médio subindo: Uma dívida média de R$ 6.920,63 exige negociação mais sofisticada, como parcelamentos e descontos calibrados para um valor que já é quatro vezes o salário-mínimo.
- Bancos e financeiras concentrando quase metade das dívidas (46,9%): Operações desse segmento devem priorizar a régua desde os primeiros dias de atraso, já que competem por um orçamento familiar cada vez mais disputado.
- Selic em queda não significa portfólio mais saudável: Reduzir expectativa de recuperação orgânica via juros mais baixos pode ser um erro de planejamento para 2026 e 2027.
- Reincidência estrutural (42% negativados há 10 anos): O dado pede estratégias de educação financeira e considerações sobre o mínimo existencial, não apenas régua tradicional de cobrança.
Por outro lado
Nem tudo no cenário é piora e má notícia. A Serasa reforça que a demanda por renegociação segue firme: desde maio, mais de 111 mil consumidores já usaram cupons de desconto para fechar acordos, somando mais de R$ 974 milhões concedidos, com outros 11 milhões de brasileiros ainda elegíveis aos benefícios do programa.
Some-se a isso o Desenrola Brasil, que continua ativo como canal de renegociação. Ou seja: o apetite do devedor para regularizar a situação existe e está sendo usado — o desafio de quem cobra, então, não é falta de interesse do outro lado da mesa, e sim a velocidade com que a dívida nova se acumula mais rápido do que a dívida velha é resolvida.
Se a sua operação ainda está usando a queda da Selic como premissa de melhora automática na carteira, esse é um bom momento para revisar esse pressuposto. No G360, discutimos justamente como calibrar régua e estratégia de negociação para um cenário onde o custo do dinheiro cai, mas o comportamento do devedor não acompanha o mesmo ritmo. Se quiser aprofundar, venha conversar comigo por lá.
Construindo o futuro do crédito e cobrança
O mercado continuará mudando: novas tecnologias surgirão, novas práticas ganharão espaço e novos desafios exigirão adaptação constante. Mas existe uma característica comum entre as operações que lideram o setor: elas nunca param de evoluir.
Foi com essa visão que construímos o G360, um ambiente de desenvolvimento contínuo para profissionais, líderes e empresas de crédito e cobrança.
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