Nos últimos dias circulou um estudo que merece a atenção de qualquer profissional de crédito e cobrança no Brasil. Divulgado pela Equifax BoaVista no início de junho de 2026, com base na análise de mais de 165 milhões de CPFs entre 2021 e 2025, o relatório “Neobanks: a nova fonte de crédito 2026” traz números que confirmam o que muita gente do mercado já sentia, mas que agora tem nome, sobrenome e dado na tabela.
O resumo disso é provocador: os bancos digitais (que chamamos aqui de “neobanks”) se tornaram a principal porta de entrada ao crédito no Brasil para o público em geral. Além disso — e ao mesmo tempo —, concentraram o maior crescimento de inadimplência do setor financeiro na última meia década.
Diante disso, precisamos entender que esses dois fatos coexistem, os motivos que estão por trás desse fenômeno e por que se alinhar a esse cenário é tarefa urgente para quem trabalha com recuperação de crédito. Vamos juntos mergulhar um pouco mais nesse assunto?
Os neobanks cresceram rápido (e ninguém esperava por isso)
Em 2021, os neobanks respondiam por 11,8% do total de crédito ativo no Brasil; salta para 2025 e essa fatia chega a 31,8%. O saldo de crédito ativo dessas instituições, nas modalidades cartão de crédito e empréstimo pessoal, avançou mais de 360% nesse período. Enquanto isso, nos bancos tradicionais o crescimento foi de 35,7%.
A base de clientes de cartões em bancos digitais saltou de 25 milhões para 61 milhões no mesmo período. Em 2025, 47,1% dos brasileiros com cartão de crédito ativo eram atendidos exclusivamente por neobanks, 19% a mais do que em 2021.
Esse crescimento tem uma explicação clara: inclusão financeira. Em 2025, 41,4% dos cartões emitidos por bancos digitais representaram o primeiro cartão de crédito das pessoas. Nos bancos tradicionais, esse percentual foi de 4,9%.
Os neobanks abriram o sistema para quem estava fora, e o fizeram em uma escala e velocidade que os bancos tradicionais nunca conseguiram (ou quiseram) alcançar. O problema, na verdade, é o que veio junto disso tudo: a inadimplência galopante.
A inadimplência que cresceu 11 vezes mais rápido que os clientes
Enquanto a base de clientes dos neobanks cresceu 14,95% entre 2021 e 2025, o número de inadimplentes, no mesmo período, avançou 163,33%. Onze vezes mais.
No cartão de crédito, a taxa de clientes inadimplentes nos bancos digitais saltou de 7,71% para 20,31%. Isso significa que, hoje, um em cada cinco clientes de neobank está com alguma parcela em atraso. Nos bancos tradicionais, no mesmo período, a inadimplência em cartões caiu de 14,57% para 13,6%.
No empréstimo pessoal, o cenário se repete. A taxa de inadimplentes nos neobanks passou de 6,55% para 13,93% entre 2021 e 2025. Entre 2024 e 2025, o aumento foi de 42%. Nos bancos tradicionais, o saldo em atraso nessa modalidade representava 3,5% do total ativo em 2025, contra 10,3% nos bancos digitais. Não é uma diferença marginal, e sim uma distância que deixa transparecer problemas verdadeiramente estruturais.
Por que isso aconteceu? E o que o mercado de cobrança precisa entender
A resposta mais fácil para essa pergunta é dizer que os neobanks concederam crédito para quem não deveria ter. Mas essa leitura é incompleta e um pouco desonesta.
O crédito que os bancos digitais distribuíram chegou a pessoas que nunca tinham tido acesso ao sistema financeiro. Para muitas dessas famílias, o cartão de um neobank foi a primeira ferramenta de crédito formal da vida. Este não é um dado trivial e não pode ser ignorado quando se faz a conta da inadimplência.
O que essa conta revela, na prática, é uma combinação de fatores que qualquer profissional experiente reconhece:
- Ausência de histórico de crédito no momento da concessão, o que dificulta qualquer modelo de score;
- Limites concedidos com base em análise comportamental digital, que é uma metodologia ainda em processo de maturação;
- Público recém-incluído no universo das finanças, com menor repertório de gestão de dívida e maior vulnerabilidade a choques de renda;
- Modalidades sem garantia real, sendo que cartão e empréstimo pessoal são, por natureza, as de maior risco;
- Ciclo econômico adverso: juros altos, inflação persistente e compressão de renda no período.
O resultado é uma carteira enorme, pulverizada, com perfil de devedor novo no sistema, e que vai bater na mesa das operações de cobrança de forma cada vez mais intensa.
O impacto direto para quem trabalha com cobrança
Todo esse movimento tem algumas implicações práticas que precisam ser incorporadas imediatamente às operações de cobrança, e não quando a carteira já estiver em colapso. Segue uma lista dessas implicações:
O perfil do devedor que chega à cobrança mudou
O inadimplente dos neobanks tende a ser mais jovem, com menos histórico de negociação, acostumado à interface digital e com múltiplos relacionamentos financeiros simultâneos, muitas vezes com dois ou três bancos digitais ao mesmo tempo. A abordagem precisa ser calibrada para esse perfil.
O canal importa mais do que nunca
Esse tipo de novo devedor não atende a chamadas de número desconhecido e não abre e-mail de cobrança, mas está no WhatsApp, no app e no push notification. As operações que não trabalham com uma régua de cobrança digital estruturada e direcionada vão perder esse público logo na largada.
A velocidade de deterioração é alta
Uma carteira de neobank pode escalar inadimplência em questão de meses, como os dados de 2024 para 2025 demonstram, com alta de 42% em empréstimo pessoal em apenas um ano. Carteiras que não são monitoradas com indicadores de alerta antecipado chegam ao ponto crítico sem tempo de reação.
Atenção ao assumir carteiras
Quem compra ou recebe cessão de carteiras de bancos digitais precisa estar ciente do que está adquirindo. O preço do ativo inadimplente desse segmento precisa refletir o custo real de recuperação, que é mais alto, exige mais tentativas, canais diferentes e abordagem específica.
A outra leitura que o mercado não pode ignorar
Há uma frase do estudo da Equifax Boavista que merece registro e reflexão. Um executivo do setor ponderou: “De cada cinco clientes, quatro pagaram. Esses quatro foram famílias ou pessoas que não tinham acesso ao crédito e, de repente, conseguiram comprar algo para revender ou atravessar um problema financeiro”.
Esse dado é muito importante para as nossas análises, afinal 80% dos clientes dos neobanks estão pagando. E muitos deles são famílias que, pela primeira vez, conseguiram acesso a crédito formal e estão honrando esse compromisso.
Dessa maneira, o mercado de crédito e cobrança precisa olhar para os 20% que não estão pagando com estratégia, sem generalizar. Uma boa parte desse público está em situação temporária de dificuldade, parte tem perfil de superendividamento e a outra parte simplesmente nunca teve educação financeira para entender o custo do crédito rotativo.
Construído esse cenário, temos que cada um desses subgrupos pede uma abordagem diferente de cobrança. A operação que tratar todos eles como pertencendo a um bloco homogêneo de perfil vai gastar mais e recuperar menos.
O que vem pela frente
Os neobanks já respondem por quase um terço do crédito ativo no Brasil, e essa fatia vai continuar crescendo. A inclusão financeira digital não tem freios e nem marcha à ré, e nem deveria ter.
Em paralelo, o mercado de cobrança precisa se preparar para absorver o volume de inadimplência que o crescimento desse setor traz consigo. Mas se preparar não com pessimismo, mas com profissionalismo: processos, tecnologia, segmentação de carteira e negociadores treinados para o perfil de quem está chegando.
O devedor do neobank não é o mesmo que o devedor do banco tradicional: ele tem outro histórico, outros canais preferidos, outras expectativas de negociação. Operar com esses devedores como se fossem todos iguais é desperdiçar a única oportunidade de recuperar aquele crédito.
O estudo da Equifax BoaVista foi divulgado há poucos dias, e o mercado ainda está digerindo os números. Mas as carteiras já estão lá, e elas não esperam.
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