Inadimplência no agro: o novo epicentro do risco de crédito

Passamos os últimos dois anos falando de cartão, crédito pessoal e consignado privado como os grandes vilões da inadimplência brasileira — e, de fato, eles seguem sendo. O cartão inclusive é citado como maior produto causador do endividamento que chegou a 71,14% em março deste ano. Porém, um novo fator emerge no mercado: a inadimplência no agro.

Dados de crédito de maio, divulgados pelo Banco Central e destrinchados em análise do Safra publicada em 2 de julho, mostram algo que muda a régua de prioridades de quem trabalha com risco: o centro de gravidade da deterioração está migrando do consumidor para o crédito rural.

Diante disso, podemos já dizer que não se trata de apenas um detalhe estatístico, mas de uma mudança de eixo. E quando o eixo muda, a estratégia de cobrança e a política de crédito precisam mudar junto, sob pena de continuarmos apontando o radar para onde o risco já estava antes, em vez de para onde ele está indo na atual conjuntura.

Os números de maio e a inadimplência no agro

A inadimplência acima de 90 dias do Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,7% em maio, com alta de 0,1 ponto percentual no mês, o que configura um recorde histórico da série que vem sendo divulgada pelo BACEN desde março 2011. 

O que chama mais atenção, na verdade, é outro número: as concessões de crédito cresceram apenas 0,5% no mês. Crédito desacelerando e carteira piorando ao mesmo tempo é a combinação que qualquer gestor de risco deveria temer, porque indica que a cautela dos bancos já começou, mas a inadimplência ainda não deu sinais de arrefecer.

No âmbito da pessoa física, o enredo é bem conhecido: cartão, crédito pessoal e consignado privado continuam puxando a piora. Mas é no crédito rural que o salto se torna agudo: a inadimplência entre 15 e 90 dias nas operações rurais subiu 88 pontos-base em maio; nas linhas a taxas de mercado, o avanço foi de 179 pontos-base. E o indicador que resume o tamanho do problema é este: a inadimplência acima de 90 dias no crédito rural foi a 7,6%, mais que o dobro do patamar observado há um ano.

Aqui, um detalhe que interessa diretamente a quem estrutura política de crédito: essa deterioração pressiona de forma desproporcional os bancos públicos, com maior exposição ao produtor rural, justamente em um momento em que a concentração de vencimentos de dívidas rurais entre abril e setembro se aproxima.

No meio da tempestade, o Plano Safra 2026/27

Na mesma semana em que os dados e as análises saíram, o governo lançou o Plano Safra 2026/2027, com R$ 610 bilhões no total e R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial — R$ 9 bilhões a mais que o ciclo anterior. 

As taxas de juros das principais linhas caíram: o custeio empresarial foi de 14% para 12,5% ao ano, o Pronamp foi de 10% para 9%, e Prodecoop e Procap-Agro, usadas por cooperativas, tiveram o corte mais forte, caindo de 13,5% para 12%.

O ponto que merece atenção de quem acompanha crédito e cobrança não é o volume anunciado, mas a sua composição. Do total anunciado para o Plano Safra, apenas R$ 97 bilhões chegam ao produtor com juros equalizados (ante R$ 91,3 bilhões no ciclo passado), enquanto cerca de R$ 194 bilhões dependem de Cédulas de Produto Rural a juros livres, negociadas diretamente entre bancos e produtores. Ou seja: uma fatia relevante do crédito rural desta safra vai continuar cara, mesmo com o anúncio de juros menores nas linhas subsidiadas.

O governo também vinculou a renegociação de operações de custeio à contratação de Proagro ou seguro rural, um reconhecimento explícito de que a gestão de risco no campo precisa de mais instrumento de proteção, não apenas de mais crédito.

A leitura da Serasa que reforça o diagnóstico

O próximo dado da semana fecha o quadro: o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian mostrou que o Brasil fechou 2025 com 2.466 empresas em processos de recuperação judicial, representando recorde da série histórica e alta de 13% sobre os números de 2024. Nessa distribuição, o agro respondeu por 30,1% dos CNPJs envolvidos — 743 empresas —, a maior fatia entre todos os setores.

O salto histórico impressiona: em 2012, o agro representava apenas 1,3% dos pedidos de recuperação judicial; hoje, lidera a estatística. Some-se a isso os 8,7 milhões de CNPJs negativados registrados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por empresa, e fica difícil não enxergar o agro como o setor que concentra o maior risco de deterioração adicional em 2026.

O que a inadimplência no agro muda para quem trabalha com cobrança

Três notícias, três números, uma única leitura: o risco está se deslocando. E isso tem implicações operacionais concretas:

  • Réguas específicas para o rural: O ciclo de safra e entressafra não se comporta como a régua padrão de crédito pessoal. Vencimentos concentrados entre abril e setembro exigem calendário de contato próprio, não um simples copia-e-cola da régua utilizada para o varejo.
  • Atenção redobrada a carteiras públicas: Banco do Brasil e Caixa têm exposição concentrada ao produtor rural. Operações e assessorias que atendem essas carteiras devem esperar volume crescente de casos no segundo semestre.
  • A garantia muda a lógica de recuperação: Diferente do crédito pessoal sem garantia, o rural frequentemente tem lastro em CPR, penhora ou hipoteca. Isso muda o roteiro de negociação e o apetite de quem compra carteiras cedidas.
  • Cessão de carteiras rurais deve crescer: Como já vínhamos discutindo aqui sobre a Resolução 4.966, carregar um ativo problemático no balanço tem custo contábil crescente. Quem compra precisa de due diligence redobrada nesse segmento, dado o histórico de volatilidade climática e cambial embutido no risco.
  • Segmentação PF rural x PJ rural x agroindústria: Tratar o agro como bloco único é o erro mais comum que vejo em operações que estão só agora se organizando para esse tipo de carteira.

Um outro lado da análise

Apesar dos números e do contexto, certamente seria exagero ler esse cenário como uma crise generalizada do crédito rural. Sobre isso, alguns contrapontos a essa indicação merecem espaço:

  • A concentração de vencimentos entre abril e setembro é sazonal, não estrutural: parte da piora deve refletir esse calendário, e não necessariamente uma deterioração permanente da capacidade de pagamento do produtor.
  • O Plano Safra 2026/27 trouxe juros menores nas principais linhas subsidiadas, o que tende a aliviar o custo do próximo ciclo, mesmo que não resolva o estoque de dívidas já contraídas em condições piores.
  • Em volume absoluto, o crédito de varejo para pessoa física (cartão, pessoal, consignado) ainda concentra a maior massa de inadimplência do sistema. A inadimplência no agro lidera em variação e em participação nos processos de recuperação judicial, mas não é, sozinha, o maior bloco de risco do SFN.

Um recado para 2026

O que os três dados publicados nesta semana têm em comum é o seguinte: o risco de crédito no Brasil está mudando de endereço, e quem estrutura política de crédito ou régua de cobrança precisa considerar a inadimplência no agro e mudar o mapa junto. 

Não se trata de abandonar o cuidado com consignado, cartão e crédito pessoal, pois a inadimplência ali segue recorde. Trata-se, na verdade, de abrir uma frente nova, com metodologia própria, para um setor que só cresceu em relevância nos indicadores de risco nos últimos anos.

Minha recomendação de sempre vale aqui com ainda mais força: profissionalize a operação, segmente por perfil de devedor e trate cada carteira pela lógica que ela exige, e não pela lógica que já está pronta na gaveta.

Construindo o futuro do crédito e cobrança

O mercado continuará mudando: novas tecnologias surgirão, novas práticas ganharão espaço e novos desafios exigirão adaptação constante. Mas existe uma característica comum entre as operações que lideram o setor: elas nunca param de evoluir.

Foi com essa visão que construímos o G360, um ambiente de desenvolvimento contínuo para profissionais, líderes e empresas de crédito e cobrança.

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Eduardo Tambellini
Eduardo Tambellini
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