Vou começar este artigo com um número que não deve surpreender quem trabalha com cobrança, mas que assusta qualquer um que ainda acredita que inadimplência é um desvio de conduta: 82,8 milhões de brasileiros negativados em março de 2026. Mais da metade da população adulta do país. São R$ 557 bilhões em dívidas em atraso. É nesse cenário que surge o Desenrola 2.0.
O Governo Federal lançou, no dia 4 de maio de 2026, o Desenrola 2.0, ou “Novo Desenrola Brasil”, como prefere o Palácio do Planalto. O programa oferece descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês, uso do FGTS para abater dívidas, prazo de até 10 anos para beneficiários do INSS. Uma oferta, no papel, bastante generosa.
Mas, depois de mais de 30 anos no mercado de crédito e cobrança, aprendi que toda boa notícia merece uma segunda leitura. E a segunda leitura do Desenrola 2.0 é bastante diferente da manchete.
O que o Desenrola 2.0 oferece — e para quem
O Desenrola 2.0 tem quatro frentes:
- Desenrola Famílias, para pessoas com renda de até 5 salários-mínimos;
- Desenrola FIES, para dívidas estudantis;
- Desenrola Empresas, para micro e pequenas empresas; e o
- Desenrola Rural, para agricultores familiares, com prazo até dezembro de 2026.
No caso do Desenrola Famílias, que é o carro-chefe de todo o programa e de longe o mais comentado, só podem ser renegociadas dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado contratado até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 90 dias e dois anos. O programa tem vigência de 90 dias, e a adesão depende das instituições financeiras, que podem participar ou não.
Aqui já aparece o primeiro ponto de atenção para quem trabalha com cobrança: o programa é seletivo no quesito modalidades. Assim, financiamentos de veículos, imóveis e crédito consignado, por exemplo, ficam de fora.
Isso vai contra o fato constatado de que a carteira de crédito do brasileiro é muito mais diversa do que apenas cartão e cheque especial. Como consequência, uma parcela relevante dos inadimplentes simplesmente não se enquadra no programa. Além disso, quem tem uma dívida de cartão e está disposto a negociar vai querer ter as mesmas condições nos outros produtos.
O que o Desenrola 1.0 nos ensinou (e o governo ignorou)
A primeira edição do Desenrola, lançada em 2023, é apresentada pelo governo como tendo sido um verdadeiro sucesso: 15 milhões de brasileiros atendidos, R$ 58 bilhões em dívidas renegociadas. São números expressivos, sem dúvida.
Mas o Banco Central registrou algo que o boletim oficial não destaca: para cada R$ 1,00 negociado no Desenrola 1.0, foram gerados R$ 1,15 em novas dívidas. E a inadimplência, que havia recuado após o programa, voltou a crescer ao longo de 2025, com a taxa de pessoas físicas atingindo 5,42% em fevereiro de 2026, patamar superior ao do lançamento do programa anterior. Isso não é acidente. É estrutura.
O inadimplente não é, necessariamente, um picareta. Na maioria dos casos, é alguém que perdeu renda, que não planejou, que não recebeu educação financeira suficiente para navegar em um sistema de crédito que cobra, em média, juros estratosféricos. Resolver a dívida de hoje sem endereçar nenhum desses fatores é, como dizem os economistas ouvidos pelo Diário do Nordeste, tratar o sintoma sem tocar na doença.
O risco moral que ninguém quer nomear
Existe uma questão que o mercado de crédito sabe, mas raramente diz em voz alta: a recorrência de programas de renegociação cria um incentivo perverso. Se o devedor aprende pela experiência repetida que basta esperar e o governo vai lançar mais um Desenrola, a cultura de pagamento é corroída. Não é teoria. É comportamento racional.
A FIEMG alertou para exatamente isso: “A recorrência de programas de renegociação pode enfraquecer a cultura de pagamento e estimular comportamentos que geram impactos negativos sobre a disciplina financeira no longo prazo”. E a federação vai além, apontando que a imposição de limites de juros e descontos forçados pode comprometer a precificação de risco pelas instituições financeiras, o que, no médio prazo, restringe o crédito justamente para quem mais precisa.
Do ponto de vista de quem trabalha com cobrança, há ainda outro impacto prático: durante os 90 dias do programa, as equipes de cobrança precisarão navegar em um ambiente de expectativa elevada. O devedor que sabe que o Desenrola existe e que pode não se enquadrar por critério de modalidade ou prazo de atraso vai questionar, comparar, postergar. Prepare sua operação para isso.
Em que o Desenrola 2.0 acerta — e não é pouco
Feita a crítica necessária, é preciso ser justo: o Desenrola 2.0 acerta em alguns pontos muito relevantes.
Primeiro, o teto de juros de 1,99% ao mês para o refinanciamento é civilizado, especialmente quando comparado com as taxas que o próprio cartão de crédito pratica, que frequentemente fica acima de 15% ao mês no rotativo. Para o devedor que conseguir se enquadrar, isso representa uma redução drástica do custo da dívida.
Segundo, a possibilidade de usar até 20% do saldo do FGTS (ou R$ 1.000, o que for maior) como amortização é uma novidade relevante. Para o trabalhador formal com saldo acumulado, isso pode ser o empurrão que faltava para zerar ou reduzir substancialmente a dívida.
Terceiro, os descontos de até 90% em dívidas antigas, especialmente as que já estavam precificadas como perda pelas instituições financeiras, representam uma chance real de regularização para um público que, sem o programa, simplesmente não teria condições de negociar. Para esse grupo, o Desenrola 2.0 pode ser genuinamente transformador.
A XP Research projeta que o programa pode reduzir a inadimplência em cerca de 0,8 ponto percentual e contribuir com até 0,15 ponto percentual no crescimento do PIB em 2026. São números modestos, mas reais. E, para o devedor que conseguir sair do ciclo de endividamento, o impacto individual é muito maior do que qualquer estatística.
O que falta ao Desenrola 2.0 (e é essencial)
Após mais de 30 anos observando esse mercado, digo com convicção: o problema do endividamento no Brasil é estrutural, e nenhum programa de renegociação, por mais bem desenhado que seja, vai resolvê-lo sozinho.
O que falta, de forma consistente, é educação financeira. Não como slogan, mas como política pública séria, integrada ao currículo escolar e ao onboarding de qualquer produto de crédito.
Falta também uma discussão adulta sobre os juros praticados no Brasil, que seguem entre os mais altos do mundo e tornam qualquer dívida um buraco sem fundo.
Por fim, falta reconhecer que a cobrança, quando bem-feita, humanizada, baseada em dados e orientada para a solução real da capacidade de pagamento do devedor, é parte da solução, não do problema.
O Desenrola 2.0 vai ajudar milhões de brasileiros a limpar o nome e reorganizar as finanças? Sim, especialmente os que se enquadrarem nos critérios e forem bem orientados no processo de renegociação. Vai resolver o problema estrutural da inadimplência no Brasil? Não. E em 2027 ou 2028, se nada mudar nas raízes do problema, estaremos aqui falando do Desenrola 3.0.
Para o profissional de cobrança, a mensagem prática é a seguinte: o Desenrola 2.0 é uma janela de oportunidade, tanto para o devedor, que pode ser orientado a aderir, quanto para a operação, que vai lidar com mais negociações nos próximos meses.
Use esse momento para qualificar seu time, entender os critérios do programa e ajudar o devedor a tomar a melhor decisão para a sua realidade. É isso que diferencia a cobrança profissional da cobrança predatória.
O mercado muda e a inadimplência evolui, mas o bom negociador, aquele que entende a jornada do devedor, sempre encontra o caminho.




