Imagine uma orquestra sem maestro. Cada músico toca no seu próprio ritmo, sem seguir a mesma partitura. O resultado? Ruído, descompasso e a perda completa da harmonia. É o que acontece quando não existe uma régua de cobrança para ser seguida.
Em muitas empresas, esse exemplo cabe perfeitamente em seus processos de cobrança: ações isoladas, mensagens desencontradas, contatos feitos na hora errada e, no fim, clientes insatisfeitos e um caixa comprometido.
Uma estratégia de cobrança eficiente é como o maestro que garante que cada ação aconteça no momento certo, com o tom adequado e pelos canais mais eficientee. É aqui que entra a régua de cobrança: um roteiro estruturado que organiza contatos, canais, ofertas e gatilhos em relação ao tempo, adaptando-se ao perfil e comportamento de cada cliente.
Neste artigo, você vai entender:
- O que é, de fato, uma régua de cobrança e por que ela é tão estratégica
- As fases que toda régua deve contemplar
- Como segmentar clientes para aumentar a efetividade
- Quais canais e cadências funcionam melhor em cada cenário
- Os cuidados legais que você precisa ter
- Modelos práticos para se inspirar e erros comuns para evitar
Se você quer aumentar a recuperação de crédito, manter o fluxo de caixa saudável e, ao mesmo tempo, preservar o relacionamento com o cliente, este conteúdo é para você. Vamos começar?
O que é uma régua de cobrança (na prática)
Uma régua de cobrança é muito mais do que enviar lembretes automáticos de pagamento. Ela é um roteiro estratégico que define o que fazer, quando fazer, por qual canal e com qual abordagem para aumentar as chances de receber um pagamento, preservando, ao mesmo tempo, o relacionamento com o cliente.
Na prática, isso significa organizar todas as interações de cobrança ao longo do tempo, considerando alguns critérios objetivos, como:
- Risco de inadimplência (baixo, médio, alto), medido por modelos como o Collection Score;
- Momento do atraso, também chamado de bucket (0 a 30 dias, 31 a 60 dias etc.);
- Valor da dívida e importância do cliente para o negócio;
- Histórico de relacionamento e preferências de canal;
- Situações específicas como o FPD (First Payment Default), quando o cliente já atrasa logo no primeiro pagamento.
Quando bem construída, a régua ajuda o gestor a controlar custos de cobrança, melhorar a taxa de recuperação e reduzir atritos que afastam o cliente.
O que é e o que não é uma régua de cobrança
Quando você pesquisa pelo termo, pode encontrar diversas definições e exemplos que podem confundi-lo. Para tentar contornar esse problema, a tabela abaixo vai ajudar você a entender o que, de fato, é uma régua de cobrança – e o que não é.
O que é uma régua de cobrança | O que não é uma régua de cobrança |
Um processo estruturado com etapas e critérios claros. | Uma sequência aleatória de ligações e mensagens. |
Uma estratégia segmentada, adaptada ao perfil e risco do cliente. | Um modelo único aplicado para todos os clientes. |
Um equilíbrio entre custo de contato e potencial de recuperação. | Gasto excessivo em canais caros sem retorno mensurável. |
Uma combinação de canais, cadências e ofertas planejadas. | Apenas disparar boletos ou e-mails automáticos. |
Uma ferramenta para manter o relacionamento saudável com o cliente. | Uma abordagem agressiva que afasta e desgasta a relação. |
Premissas básicas para qualquer régua de cobrança
- Segmentação é obrigatória: risco, ticket, momento do atraso e perfil do cliente definem a abordagem.
- Fases bem definidas: preventivas, de cobrança e de recuperação.
- Mix inteligente de canais: e-mail, SMS, WhatsApp, telecobrança e automação, usados na hora certa.
- Limites legais e éticos: respeito ao Código de Defesa do Consumidor e outras legislações aplicáveis.
- Monitoramento e ajustes constantes: análise de KPIs e aplicação de testes.
Uma régua de cobrança sempre trabalha com fases
Mesmo que existam processos mais detalhados, complexos e com muitas fases, é importante entender que toda régua eficiente passa por três momentos-chave:
- Fase preventiva: ações antes do vencimento ou nos primeiros dias, para evitar o atraso.
- Fase de cobrança: abordagem ativa nos primeiros buckets (até cerca de 90 dias), focada na regularização.
- Fase de recuperação: esforços para atrasos longos, com condições especiais ou estratégias de terceiros.
Na prática: imagine que você recebe um alerta no sistema de que um cliente de alto risco, com dívida relevante, entrou no bucket de 15 dias. A régua automaticamente envia uma mensagem de WhatsApp com link de pagamento, agenda uma ligação consultiva para o dia seguinte e, caso não haja resposta, prepara um e-mail com proposta de renegociação. Isso é agir de forma orquestrada, e é assim que os resultados aparecem.
Por que sua empresa precisa de uma régua de cobrança bem estruturada
Implementar uma régua de cobrança eficiente não é apenas uma questão operacional, e sim uma decisão estratégica que impacta diretamente o caixa, a saúde financeira e a capacidade de crescimento da sua empresa.
A seguir, veja benefícios tangíveis comprovados por estudos e pela prática de empresas que já adotaram esse modelo.
1 – Aumento da taxa de recuperação
De acordo com pesquisa da Serasa Experian, empresas que aplicam régua de cobrança segmentada podem aumentar em até 28% a recuperação de crédito em comparação com métodos não estruturados.
Com uma régua de cobrança é possível priorizar contatos de alto impacto com clientes que tenham maior probabilidade de pagamento. Isso evita desperdiçar recursos com clientes de baixo retorno e melhora a performance da equipe.
2 – Redução de custos operacionais
O uso inteligente de canais de baixo custo nas fases iniciais (como e-mail, SMS e WhatsApp) reduz significativamente a necessidade de ligações humanas, que podem custar até dez vezes mais por interação.
Nesse sentido, empresas que implementaram automação estratégica relatam que reduziram em média 22% dos custos de cobrança no primeiro ano.
3 – Prevenção de inadimplência
A régua não atua apenas depois do atraso, pois a fase preventiva é crucial para evitar que a dívida aconteça. Segundo dados do SPC Brasil, 42% dos atrasos ocorrem por esquecimento ou problemas de comunicação. Com lembretes e facilitação de pagamento, boa parte desses casos é eliminada.
4 – Melhoria no fluxo de caixa
Ao antecipar pagamentos e reduzir o tempo médio de recebimento, a empresa consegue manter um caixa saudável para cumprir obrigações e investir no crescimento. Clientes que implantam uma régua bem estruturada tendem a ter o prazo médio de recebimento (DSO) reduzido de maneira considerável.
5 – Preservação do relacionamento com o cliente
Cobrança eficiente não significa pressão excessiva. Uma régua bem desenhada mantém o tom adequado e respeita a jornada do cliente, evitando desgastes. Empresas que aplicam comunicação humanizada tendem a registrar aumento na reativação de clientes após a quitação da dívida.
As 3 fases essenciais da régua de cobrança
Antes de qualquer contato com o cliente, a régua começa na segmentação: separar a base por risco, valor, fase do relacionamento e momento do atraso. Essa etapa define quais ações entrarão em cada fase e com qual intensidade.
A partir disso é que entram as fases em que há o contato com o cliente. Dessa maneira, uma régua de cobrança bem estruturada normalmente se divide em três grandes fases:
1 – Preventiva
Nesta fase, o objetivo é evitar que a inadimplência aconteça. Aqui entram lembretes de vencimento, facilitação de pagamento e comunicação clara sobre valores e prazos. É uma fase de baixo custo e alto impacto, ideal para corrigir atrasos por esquecimento ou problemas simples de comunicação.
2 – Cobrança
A fase da cobrança contece logo após o vencimento, nos primeiros buckets (até cerca de 90 dias), combinando canais automatizados e contato humano para negociar e regularizar a dívida. Nesta fase, o custo por interação é moderado e o potencial de recuperação ainda é alto.
Dependendo das regras de negócio, algumas empresas já começam a usar vias como negativação ou protesto a partir de determinado ponto — por exemplo, após 30 ou 60 dias de atraso.
É também comum que, em atrasos mais avançados dentro dessa fase, parte da cobrança seja terceirizada para parceiros especializados, sempre com critérios e SLAs bem definidos.
3 – Recuperação
A fase de recuperação é focada em atrasos longos, quando as chances de pagamento caem e é preciso usar recursos mais intensivos. Aqui normalmente entram:
- Condições especiais e renegociações mais flexíveis.
- Ações como protesto ou negativação, se ainda não realizadas.
- Uso de parceiros externos para cobrança.
- E, em casos com garantias ou alto valor, judicialização do processo.
A recuperação é a fase de maior custo* e menor taxa de sucesso, mas ainda pode gerar retorno quando bem conduzida. A régua eficiente reconhece que, nesse estágio, o crédito é mais difícil de recuperar e exige decisões rápidas para maximizar resultados.
Custo x tempo: a curva da cobrança
Na prática, quanto mais o tempo passa, mais cara e complexa se torna a cobrança.
Nos primeiros dias, ações como e-mail, SMS e WhatsApp têm custo baixo e boa taxa de sucesso. Mas, à medida que a dívida envelhece, surgem custos com ligações humanas, visitas presenciais, terceirização e, no extremo, processos judiciais.
Uma régua eficiente busca maximizar a recuperação nas fases iniciais, quando o custo é menor, para reduzir a necessidade de esforços caros e demorados no futuro.
Cada fase exige um tom, uma cadência e um canal específico. Tratar todas as etapas com a mesma abordagem é desperdiçar recursos e diminuir a efetividade.
Segmentação inteligente para aumentar a efetividade
Segmentar a carteira significa dividir os clientes em grupos com características semelhantes para aplicar abordagens diferentes de cobrança. Na prática, isso garante que cada cliente receba a comunicação, o canal e a oferta mais adequados ao seu perfil e, de quebra, evita desperdício de recursos.
Sem a segmentação, a régua de cobrança vira um modelo único para todos, o que reduz a taxa de recuperação e aumenta o custo por ação.
Critérios comuns de segmentação
- FPD (First Payment Default): Clientes que atrasam já na primeira parcela. Muitas vezes o problema é simples: boleto não recebido, dificuldade em acessar o canal de pagamento ou desconhecimento do processo.
- Risco de inadimplência: Classificação em alto, médio ou baixo risco, normalmente baseada em modelos como Collection Score. Permite acelerar ações para alto risco e reduzir intensidade para baixo risco.
- Ticket, produto e antiguidade do cliente: Um cliente novo com alto valor em atraso pode demandar abordagem mais cautelosa que um cliente antigo com histórico positivo.
- Canal preferido: Saber se o cliente responde melhor a WhatsApp, e-mail ou ligação pode aumentar muito a taxa de contato.
- Momento do atraso (bucket): Agrupar por faixas de dias em atraso (ex.: 0–30, 31–60, 61–90) ajuda a definir quando mudar o tom ou escalar a ação.
Combinação de critérios
Muitas vezes, utilizar um critério de segmentação de maneira isolada não é suficiente para que se tenha o resultado esperado. Por exemplo: tratar todos os clientes de alto ticket da mesma forma pode ser ineficiente se alguns forem baixo risco e outros alto risco.
Assim, combinar critérios de segmentação aumenta a precisão e melhora os resultados. Acompanhe, na tabela a seguir, algumas situações típicas em que combinação de critérios pode ser eficiente.
Segmento | Critérios | Ações recomendadas |
FPD + Alto risco | 1ª parcela em atraso + Collection Score alto | Lembrete rápido (WhatsApp) + ligação humana consultiva em até 3 dias |
Alto ticket + baixo risco | Valor acima de R$ 5 mil + histórico positivo | E-mail personalizado + proposta de autonegociação |
Baixo ticket + alto risco | Valor até R$ 500 + Collection Score alto | Ações digitais rápidas (SMS, WhatsApp) + negativação antecipada |
Cliente recorrente | Antiguidade > 2 anos + bucket até 30 dias | Lembrete cordial e facilitação de pagamento |
Bucket avançado | Mais de 90 dias em atraso | Condições especiais, protesto ou judicialização |
O problema de tratar todo mundo da mesma maneira
Imagine dois clientes: o cliente A, que tem uma dívida de R$ 300, baixo risco, atraso de 15 dias; e o cliente B, com uma dívida de R$ 10 mil, alto risco, atraso de 15 dias.
Se a régua aplicar o mesmo contato para ambos (um único e-mail genérico, por exemplo), há grande chance de perder o momento ideal com o cliente B e gastar recursos desnecessários com o cliente A. Segmentar a base evita esse erro e aumenta a efetividade da régua de cobrança.
Canais e cadência de contato
Na régua de cobrança não existe um “canal mais eficiente” universal. O resultado, na verdade, depende de quem é o cliente, qual é a mensagem, o momento do atraso, o histórico de relacionamento e até a forma de apresentação do contato. A escolha correta do canal vem da combinação de segmentação + teste + análise de resultados.
Para que possamos entender as características de cada canal de contato, seus pontos fortes, custos e pontos de atenção de maneira comparativa, separamos os dados em uma tabela, a seguir.
Canal | Definição | Fatores críticos de sucesso | Pontos de atenção | Custo relativo |
Mensagem escrita com detalhes da dívida e formas de pagamento. | Assunto claro, layout responsivo, CTA visível. | Evitar SPAM, manter base de e-mails higienizada. | Baixo | |
SMS | Mensagem curta enviada ao celular. | Clareza, link de pagamento encurtado e seguro. | Limite de caracteres, risco de bloqueio por operadoras. | Baixo |
Mensagens instantâneas, com texto, imagem e link. | Uso de conta oficial, personalização, tempo de resposta rápido. | Respeitar LGPD e consentimento. | Baixo-médio | |
URA/Automação de voz | Chamadas automatizadas com menu interativo ou recados. | Mensagem objetiva, horário adequado. | Pode gerar rejeição se excessivo ou robótico demais. | Médio |
Ligação humana | Contato telefônico direto com o cliente. | Script flexível, abordagem humanizada, escuta ativa. | Respeitar horários permitidos e evitar contato com terceiros. | Médio-alto |
Visita presencial | Contato físico em endereço do cliente. | Profissional treinado, segurança, documentação. | Custo alto, usar apenas em casos estratégicos. | Alto |
Terceirização | Encaminhar cobrança para empresa parceira. | SLA claro, acompanhamento de qualidade. | Preservar imagem da marca, alinhar abordagem. | Variável |
Negativação/Protesto | Registro da dívida em órgãos de proteção ao crédito ou cartório. | Cumprimento de prazos legais, notificação prévia. | Pode encerrar o relacionamento com o cliente. | Médio |
Judicialização | Ação legal para recuperação da dívida. | Base jurídica sólida, análise de custo x benefício. | Processo lento e caro, usar como último recurso. | Muito alto |
Cadência inteligente: fluxos baseados em gatilhos
Ao invés de pensar em cadência como uma linha do tempo fixa (por exemplo, no dia 1 envia isso, dia 3 liga), uma abordagem mais eficiente é criar fluxos inteligentes baseados no comportamento do cliente, como na situação a seguir.
- E-mail enviado no dia 1.
- Se o cliente abrir e clicar no link → enviar oferta de pagamento via WhatsApp.
- Se não abrir → enviar SMS com link de pagamento no dia 2.
- Se não responder ao SMS → ligação humana no dia 4.
Esse modelo, baseado em gatilhos e caminhos diferentes para cada tipo de cenário, permite adaptar a régua em tempo real, aumentando a chance de contato e reduzindo desperdício de recursos.
Erros comuns na escolha de canais e cadência
Mesmo munido de todas essas orientações e guias práticos, é muito comum que o empresário tome decisões equivocadas e erre na hora de escolher os canais de contato. Para ajudar a minimizar esses impactos, listamos os erros mais comuns nessas escolhas.
- Usar o mesmo canal para todos os clientes sem considerar perfil ou histórico.
- Repetir contatos sem resposta no mesmo canal, em vez de alternar.
- Excesso de interações em pouco tempo, gerando desgaste (“overcontact”).
- Ignorar dados de abertura, cliques e respostas para ajustar a cadência.
Outro aspecto importante e que precisa ser considerado é: a escolha de canal e cadência precisa estar alinhada à segmentação feita no início. Além disso, testes A/B e acompanhamento de métricas devem ser constantes para evoluir a régua.
Lembre-se sempre: o melhor canal é aquele que funciona para o seu público específico, no momento certo, com a mensagem certa.
Limites legais que sua régua precisa respeitar
Uma régua de cobrança eficiente não é apenas estratégica, ela também precisa ser utilizada conforme a lei. Ignorar limites legais pode gerar multas, ações judiciais e danos à reputação da empresa.
Dentre os dispositivos legais que devem ser levados em consideração estão o Código de Defesa do Consumidor (CDC), a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), leis estaduais e locais, além, claro, de questões de ética. Acompanhe o que cada um desses dispositivos traz, de maneira geral:
Código de Defesa do Consumidor (CDC)
- Proíbe ameaça, coação, constrangimento físico ou moral.
- Não expor o cliente ao ridículo.
- Não interferir no trabalho, descanso ou lazer do cliente.
- Respeitar horários permitidos para contato.
LGPD e proteção ao crédito
A Lei Geral de Proteção de Dados não trata apenas de consentimento: ela permite o tratamento de dados para proteção do crédito como uma das hipóteses legais.
Ainda assim:
- Respeite o canal informado ao cliente.
- Mantenha transparência sobre o motivo do contato.
- Garanta segurança e sigilo no uso das informações.
Outras regulações e cuidados
- Não Perturbe (SP e outros estados): verificar cadastro e respeitar bloqueios.
- Anatel: já propôs regras para limitar ligações automáticas; respeitar boas práticas evita regulamentações mais rígidas no futuro.
- Protesto e prescrição: dívidas prescritas (acima de 5 anos) podem ser cobradas amigavelmente, mas não podem ser protestadas ou negativadas.
Ética na cobrança
Mais do que cumprir a lei, é preciso preservar a relação com o cliente, por meio de:
- Abordagem humanizada.
- Clareza nas ofertas.
- Respeito ao momento e contexto do cliente.
Lembre-se: a régua deve proteger não apenas o fluxo de caixa da empresa, mas também a imagem e a reputação junto ao mercado.
Como criar um modelo de régua de cobrança (exemplo prático)
Existem duas abordagens principais para construir uma régua de cobrança: a que utiliza fluxos lineares e a que utiliza fluxos baseados em gatilhos.
A abordagem que utiliza fluxos lineares se refere a sequências fixas de ações, executadas em dias pré-definidos. Por exemplo, no dia 1 envia e-mail, dia 3 envia SMS, dia 5 faz ligação humana.
A vantagem dessa abordagem é que se trata de algo simples de implementar e já traz grande ganho sobre a ausência de processo. A limitação, por sua vez, é a de que não considera o comportamento do cliente, podendo gerar contatos desnecessários.
Já na abordagem que utiliza fluxos baseados em gatilhos (triggers), as ações mudam conforme a reação (ou ausência de reação) do cliente. Por exemplo: se o cliente abrir o e-mail, vai para uma ação. Se não abrir, vai para outra.
A utilização dos fluxos baseados em gatilhos é mais eficiente, reduz custos e melhora a experiência do cliente. Por outro lado, exige tecnologia e dados mais estruturados.
Dica importante: o ideal é começar com um fluxo linear bem executado e, conforme a aumenta a maturidade da operação e da régua, evoluir para fluxos baseados em gatilhos, que podem ser combinados com segmentações específicas.
A seguir, acompanhe dois exemplos visuais de como é uma régua com fluxo linear de abordagem:
Modelo linear 1 – FPD (First Payment Default)
Dia | Ação | Canal | Objetivo |
D-5 | Lembrete de fechamento da fatura | Antecipar informação e evitar esquecimento | |
D-2 | Envio de boleto/código de barras | SMS ou WhatsApp | Facilitar pagamento |
D+1 | Reenvio da fatura + lembrete | WhatsApp + URA | Garantir recebimento |
D+5 | Checagem de fricção | Ligação humana | Entender motivo do não pagamento |
D+10 | Oferta leve de parcelamento | Incentivar regularização | |
D+15 | Sondagem de barreiras | Ligação humana | Ajustar proposta |
Modelo linear 2 – Alto risco
Dia | Ação | Canal | Objetivo |
D-3 | Lembrete de vencimento | SMS | Criar senso de urgência |
D+1 | Link de pagamento | WhatsApp + URA | Facilitar regularização |
D+5 | Proposta estruturada | Ligação humana | Negociar de forma personalizada |
D+12 | Última chamada amigável | Incentivar antes de medidas formais | |
D+20 | Ligação sênior | Ligação humana | Negociação centralizada |
D+30 | Troca de canal e mensagem educativa | Reforçar importância da regularização |
Modelo baseado em gatilhos – Exemplo visual
Antes de implementar um fluxo baseado em gatilhos, é importante entender que ele funciona de forma não linear: ou seja, cada ação depende do comportamento ou da resposta do cliente na etapa anterior.
Isso torna a régua mais adaptável e eficiente, mas também exige maior controle, integração entre canais e uso inteligente da tecnologia para orquestrar as decisões.
O exemplo abaixo mostra uma régua que combina e-mail, SMS, WhatsApp, URA e ligações humanas, adaptando a abordagem de acordo com a reação (ou ausência de reação) do cliente.
- Dia 1 – Enviar E-mail com resumo da dívida e link de pagamento
➡ Se abrir e clicar no link: Enviar WhatsApp confirmando recebimento e oferecendo parcelamento.
➡ Se abrir, mas não clicar: Enviar **WhatsApp** com chamada mais clara para ação e opção de falar com atendente.
➡ Se não abrir: Enviar SMS com link de pagamento.
➡ Se responder ao SMS: Encaminhar para URA de autonegociação.
➡ Se não responder ao SMS: Ligação humana (dia 3) para entender barreira.
- Dia 5 – Reavaliação automática do status
➡ Se pago: Enviar mensagem de agradecimento e convite para reativar relacionamento.
➡ Se não pago e houve interação anterior: Enviar nova proposta personalizada por e-mail.
➡ Se não houve interação: Enviar WhatsApp com oferta de desconto.
- Dia 10 – Segmentação por risco e valor
➡ Alto risco ou alto ticket: Ligação sênior + envio de proposta formal por e-mail.
➡ Baixo risco e baixo ticket: SMS com prazo final de regularização.
- Dia 15 – Última chamada amigável
➡ Se houver resposta: Registrar acordo e confirmar datas de pagamento.
➡ Se não houver resposta: Aplicar negativação (se previsto na política) + envio de notificação por e-mail e carta.
As principais vantagens desse formato incluem: adaptação do contato ao comportamento do cliente, manutenção de múltiplos canais ativos sem sobrecarregar, priorização de recursos mais caros apenas quando necessário e possibilidade de ajustar as ofertas com base na interação anterior.
Erros comuns que matam a eficácia da régua
Mesmo empresas com régua de cobrança implementada podem perder eficiência por erros simples, mas críticos. Veja os mais frequentes:
1 – Tratar todos os clientes da mesma forma
- O que é: aplicar a mesma cadência e canais para todos os perfis.
- Exemplo: cliente de baixo risco e alto risco recebendo o mesmo contato padrão no mesmo dia.
- Impacto: desperdício de recursos e perda de oportunidade de recuperação.
2 – Não definir claramente as fases
- O que é: misturar ações preventivas, de cobrança e de recuperação sem lógica.
- Exemplo: enviar proposta de parcelamento longo para cliente com 2 dias de atraso.
- Impacto: abordagem desalinhada ao momento, reduzindo conversão.
3 – Overcontact (excesso de contatos)
- O que é: bombardear o cliente com múltiplos contatos em pouco tempo.
- Exemplo: WhatsApp, ligação e e-mail no mesmo dia para a mesma dívida.
- Impacto: desgaste na relação e aumento de reclamações.
4 – Escolher canais sem considerar o perfil
- O que é: usar canal de baixa aderência para o público-alvo.
- Exemplo: insistir em ligação para cliente que só responde por WhatsApp.
- Impacto: baixa taxa de resposta e custo maior por contato.
5 – Ignorar o comportamento do cliente
- O que é: seguir a cadência linear sem ajustes mesmo quando o cliente reage.
- Exemplo: continuar enviando lembretes automáticos mesmo após o cliente negociar.
- Impacto: comunicação redundante e experiência negativa.
6 – Não acompanhar métricas
- O que é: não medir taxa de contato, acordos, pagamentos e ROI.
- Exemplo: manter canal caro sem comprovação de resultado.
- Impacto: custo alto e baixa efetividade.
7 – Não respeitar limites legais
- O que é: realizar contatos fora do horário permitido ou com terceiros.
- Exemplo: ligar às 22h ou falar com familiares sem autorização.
- Impacto: risco jurídico e danos à reputação.
Métricas para monitorar e otimizar sua régua de cobrança
Uma régua de cobrança só evolui se for analisada a partir da obtenção de métricas claras e revisadas com frequência. Nesse sentido, medir é entender onde estão as falhas, o que funciona melhor e onde é possível reduzir custos.
Existe no mercado hoje um rol de métricas de monitoramento de régras de cobrança que é comumente utilizado e que, quando aplicado de maneira estratégica e constante, pode trazer ótimos resultados.
Métricas de desempenho da régua
Métrica | O que mede | Por que é importante |
Taxa de contato | Percentual de clientes contatados com sucesso | Avalia efetividade dos canais |
Taxa de acordo | Percentual de clientes que aceitaram proposta de pagamento | Mede conversão das negociações |
Percentual de pagamento | Quantos efetivamente pagaram após o acordo | Verifica qualidade das propostas |
Recuperação por bucket | Valor recuperado por faixa de atraso | Mostra eficácia em diferentes estágios |
Custo por recuperação | Quanto foi gasto para recuperar cada real | Ajuda a otimizar canais e ações |
Reativação de clientes | Percentual que voltou a consumir após pagar | Indica preservação do relacionamento |
Tempo médio de recebimento (DSO) | Média de dias entre emissão e pagamento | Impacta diretamente o fluxo de caixa |
Em paralelo, não basta saber quais são as métricas globais da régua de cobrança — é essencial acompanhar o desempenho de cada canal ou tecnologia utilizada. Essa visão permite identificar quais recursos trazem mais retorno para cada segmento de cliente e fase da régua, ajudando a otimizar custos e maximizar resultados.
A tabela a seguir apresenta ideias do que medir para cada tecnologia, mas é fundamental ter clareza do momento e objetivos da sua operação para definir quais métricas realmente importam no seu contexto.
Métricas por tecnologia aplicada
Canal/Tecnologia | O que medir para avaliar desempenho |
Taxa de entrega;
Taxa de abertura; Taxa de cliques; Taxa de resposta; Tempo médio de resposta; Taxa de conversão em pagamento. |
|
SMS | Taxa de entrega;
Taxa de cliques em link; Taxa de resposta; Tempo médio de resposta; Conversão em pagamento. |
Taxa de entrega;
Taxa de leitura; Taxa de resposta Tempo médio de resposta; Conversão em pagamento; Engajamento por tipo de mensagem. |
|
URA/Automação de voz | Taxa de chamadas atendidas;
Tempo médio de escuta; Taxa de interação com o menu; Conversão em pagamento após a ligação. |
Ligação humana | Taxa de contato (alô);
Tempo médio de ligação; Taxa de acordos fechados; Percentual de acordos pagos; Custo por contato efetivo |
Visita presencial | Taxa de comparecimento;
Percentual de acordos fechados; Custo por visita; Retorno financeiro por visita. |
Terceirização | Taxa de recuperação por parceiro;
Tempo médio de recuperação; Custo por real recuperado; Satisfação do cliente (se aplicável). |
Negativação/Protesto | Percentual de pagamentos após a ação;
Tempo médio para pagamento; Impacto na recuperação por bucket |
Judicialização | Taxa de êxito na ação;
Tempo médio de resolução; Custo total do processo; valor recuperado vs. valor investido. |
Conclusão
Uma régua de cobrança bem estruturada é muito mais do que uma sequência de lembretes de pagamento. É uma estratégia completa, que combina segmentação inteligente, escolha de canais adequada, cadências bem planejadas e monitoramento constante de resultados.
Ao longo deste guia, vimos:
- Como entender e aplicar o conceito de régua de cobrança.
- As três fases essenciais e como usá-las a seu favor.
- A importância da segmentação para personalizar abordagens.
- Como selecionar canais e definir cadências eficientes.
- Os cuidados legais e éticos que não podem ser ignorados.
- Modelos práticos para implementar na sua operação.
- Métricas para acompanhar e otimizar continuamente.
Implementar ou melhorar sua régua de cobrança exige planejamento, alinhamento entre equipes e uso inteligente de tecnologia. E, principalmente, exige compromisso com a experiência do cliente. Porque cobrar bem não é pressionar, e sim facilitar o pagamento e manter o relacionamento saudável.
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