O retrovisor e o para-brisa: o que 21 empresas revelam sobre a inadimplência futura

Toda carteira de crédito tem duas histórias diferentes para contar. A primeira é a da perda que já aconteceu: safras que rolaram, faixa a faixa, até virar prejuízo. A segunda é a da perda que está sendo construída agora, no comportamento de pagamento deste mês que começa a montar, peça a peça, a inadimplência futura. 

O problema é que a maioria das empresas olha só para a primeira e toma decisões de política, de régua e de provisão dirigindo pelo retrovisor. Ou ainda, muitas vezes olha só para um indicador e nem o conecta ao lugar certo.

No Radar Tabelando — Melhores Práticas, 21 empresas compartilham seus indicadores de crédito e cobrança de forma anonimizada. E quando colocamos lado a lado os dois indicadores de perda que acompanhamos, o EFIC180 encadeado e o EFICC180 coincidente, a fotografia é bem menos uniforme do que o consolidado sugere. Há produtos com notícia boa de verdade. E há produtos em que o alarme já deveria estar tocando.

Inadimplência futura: dois indicadores, duas perguntas diferentes

  • O EFIC180 é o indicador encadeado. Ele acompanha a rolagem das safras ao longo do tempo, encadeando cada transição de faixa de atraso até os 180 dias. Ele responde à pergunta: quanto do que estava em dia 6 meses atrás efetivamente virou perda? Essa é a perda realizada, um retrato fiel do que já passou pela carteira.
  • Já o EFICC180 é o indicador coincidente. Ele multiplica as rolagens observadas no período atual (de forma vertical), todas ao mesmo tempo, como se o comportamento de hoje se mantivesse por toda a jornada até os 180 dias. Este, por sua vez, responde a outra pergunta: se as rolagens de agora persistirem, onde a perda vai parar? Trata-se, assim, de um termômetro do presente com uma visão de projeção embutida.

A leitura do relacionamento entre os dois é o que realmente interessa aqui. Explico: quando o coincidente está abaixo do encadeado, as rolagens atuais são melhores que as do passado: a perda tende a recuar. Se o coincidente está acima, a carteira está rolando pior hoje do que rolava ontem, e a perda efetiva de amanhã vai refletir esse fato, com atraso de alguns meses.

O que mostra o Radar Tabelando

ProdutoEFIC180 (encadeado)EFICC180 (coincidente)DiferençaLeitura
Consolidado7,5%8,0%+0,5 p.p.Atenção
CDC10,9%9,1%−1,8 p.p.Melhora
CP10,2%13,5%+3,3 p.p.Alerta
BAND7,4%9,0%+1,6 p.p.Alerta
PL3,8%3,8%0,0 p.p.Estável
PLA5,0%4,6%−0,4 p.p.Melhora

Fonte: Radar Tabelando – Melhores Práticas, base compartilhada por 21 empresas. Dados anonimizados.

No consolidado, a diferença parece pequena: 7,5% de perda encadeada contra 8,0% de perda coincidente, com meio ponto percentual entre um índice e outro. Quem para de analisar aqui conclui que está tudo sob controle, com uma leve piora. Mas a média esconde dois movimentos opostos, e é aí que está a história que interessa.

A notícia boa: onde a inadimplência está recuando

O CDC é o destaque positivo do Radar. A perda encadeada está em 10,9%, mas as rolagens atuais projetam 9,1%, uma queda de 1,8 ponto percentual, ou cerca de 16,5% menos perda se o comportamento atual se mantiver. 

As safras ruins ainda estão pesando na visão do retrovisor, mas a carteira que está rolando hoje ainda é melhor. Ajustes de política e de régua feitos nos últimos meses estão aparecendo nos números.

O PLA, por sua vez, tem um movimento na mesma direção, mas um pouco mais discreto: de 5,0% para 4,6%, em um  recuo de 0,4 ponto percentual (cerca de 8%). 

Não é revolução, mas é consistente, e em carteiras de perda já baixa, cada décimo conta.

Por fim, o PL se apresenta em estabilidade total: 3,8% nos dois indicadores, comportamento que reproduz o histórico do indicador. Em um cenário de juros altos e famílias endividadas, quando esse número fica parado no mesmo lugar também é uma boa notícia.

Para esses produtos, a mensagem é clara: a perda efetiva que você vai enxergar nos próximos meses tende a ser menor do que a que você vê hoje. Isso abre espaço para revisar provisão com mais segurança e, em alguns casos, para retomar concessão com critério.

O sinal de alerta: onde a perda de amanhã já está sendo contratada

Sobre o CP: aqui o sinal é vermelho. A perda encadeada está em 10,2%, mas as rolagens atuais projetam 13,5% — 3,3 pontos percentuais a mais, configurando uma piora de cerca de 32%. 

Em outras palavras: o retrovisor ainda mostra uma carteira administrável, mas o para-brisa deixa claro que ela está rolando muito pior agora. Se nada mudar, esse número vai aparecer na perda efetiva.

O cartão bandeirado (BAND) segue o mesmo caminho, com intensidade menor: de 7,4% para 9,0%, alta de 1,6 ponto percentual (cerca de 22%). Trata-se de um produto rotativo, de acesso fácil e que costuma ser o primeiro a sentir o aperto do orçamento das famílias.

Não é coincidência que os dois produtos em alerta sejam justamente os de crédito sem destinação específica. Crédito pessoal e cartão são o colchão que o consumidor aciona quando o orçamento aperta, e por isso são os primeiros a demonstrar estresse. 

O que isso significa para a operação de cobrança

Acompanhe os dois indicadores juntos

Ou seja: olhar apenas o índice encadeado é gerir em função do passado. Em vez disso, analisar a distância entre EFIC e EFICC, pois este é o seu sinal de antecipação.

Em CP e BAND, aja nas faixas iniciais

A piora no índice coincidente nasce nas primeiras rolagens. Aqui é preciso reforçar a régua preventiva, o contato no primeiro atraso e a capacidade de atendimento antes que o volume chegue às faixas mais caras.

Revise a política de concessão desses produtos

Uma rolagem pior no presente costuma refletir em safras recentes mais frágeis. Nesse sentido, a cobrança sozinha não corrige uma entrada ruim.

Recalibre a provisão com o coincidente na mão

Na lógica de perda esperada da Resolução 4.966, ignorar a projeção das rolagens atuais é subestimar o risco que já está na carteira.

Em CDC e PLA, entenda o que funcionou

Uma melhora sem análise e diagnóstico não se sustenta. Identifique se ela veio de política, de régua, de mix ou de canal, e proteja o que deu certo.

Mas, por outro lado

O coincidente é uma projeção, não uma sentença. Ou seja, ele assume que as rolagens de hoje se manterão por toda a jornada até os 180 dias, e isso raramente acontece de forma exata. 

Nesse sentido, sazonalidade, mudanças de mix, campanhas de renegociação ou um mês atípico podem distorcer a leitura. Da mesma forma, a melhora de CDC e PLA precisa se confirmar por alguns meses antes de virar tendência.

É por isso que o valor está na série, e não no ponto isolado. Um mês de EFICC acima do EFIC é um sinal; três meses seguidos compõem, de fato, um diagnóstico. E é exatamente para isso que o benchmarking existe: separar o que é movimento do mercado do que é problema — ou mérito — da sua própria carteira.

Quer saber onde a sua carteira está nessa fotografia?

O Radar Tabelando – Melhores Práticas é construído com base em reciprocidade: quem compartilha seus indicadores recebe de volta a comparação com o mercado. Os dados são anonimizados, protegidos por contrato e tratados em conformidade com a LGPD. Nenhuma empresa é identificada; o que se compartilha é o comportamento das carteiras por produto.

Hoje somos 21 empresas. Se você quer saber se o CP que sua empresa opera está rolando melhor ou pior que o do mercado, se o CDC dela acompanha a melhora que estamos vendo ou se a régua de cartão está reagindo a tempo, o caminho é simples: entre em contato conosco e venha fazer parte do Radar. Quanto mais empresas, mais precisa fica a fotografia para todo mundo.

E se o desafio for transformar esses indicadores em gestão no dia a dia, a trilha G360 da Universidade Tabelando foi desenhada para isso: formar times de crédito e cobrança que leem o retrovisor e o para-brisa ao mesmo tempo.

Tabelando com Tambellini
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