A eleição passou e a conta chegou: a inadimplência de 2027

A urna fechou no último domingo (25/10), encerrando as eleições gerais de 2025. A conta do crédito, não. Nos três últimos ciclos, o ano seguinte à eleição terminou com mais negativados do que começou. Dessa vez, o ponto de partida é o mais alto da série — qual será, então, o cenário da inadimplência de 2027?

Enquanto o país discute ministérios, Congresso e o humor do mercado na segunda-feira, eu prefiro olhar para o que a eleição não muda: a carteira que você já tem na mão. E essa carteira chega ao fim de 2026 no pior estado que eu já vi em mais de trinta anos de cobrança.

Adeus, 2026; olá, inadimplência de 2027

Os números falam por si mesmos. Segundo a Serasa, 83,98 milhões de brasileiros estavam negativados em agosto. No Banco Central, a inadimplência do crédito com recursos livres chegou a 6,6%, a maior da série iniciada em 2011, e a das pessoas físicas bateu 8%. Do lado das empresas, a Serasa Experian contou 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, com R$ 244,4 bilhões em dívidas. Recorde também.

A pergunta que me fazem desde ontem é: “E agora, melhora?”. A minha resposta é desconfortável. A história recente diz que o ano depois da eleição não é de alívio. É o ano em que a conta chega.

O ciclo que ninguém gosta de lembrar

Fiz um exercício simples: olhar o número de negativados da Serasa nos doze meses seguintes às três últimas eleições presidenciais. Os recortes de mês variam conforme a divulgação disponível, mas a direção é a mesma nos três casos.

  • 2015: O ano começou com 54,1 milhões de negativados e terminou com 59 milhões no início de 2016. Alta de cerca de 9%, com recessão, desemprego e juros subindo.
  • 2019: De 62,6 milhões em novembro de 2018 para 63,8 milhões em novembro de 2019. Alta mais modesta, perto de 2%, mas com recorde histórico batido no meio do ano.
  • 2023: De 66,8 milhões em junho de 2022 para 71,5 milhões em junho de 2023. Alta de quase 7%, mesmo com o primeiro Desenrola entrando em campo.

Três presidentes diferentes, três agendas econômicas diferentes, e o mesmo resultado: o ano pós-eleitoral terminou com mais gente negativada do que começou. Ou seja: não é sobre quem ganhou, e sim sobre como o ciclo funciona.

Por que o ano seguinte pesa

Existe uma lógica por trás desse padrão, e ela tem pouco a ver com ideologia. Em ano de eleição, o crédito e a renda recebem estímulos: programas são lançados, ampliados ou antecipados, e as negociações ganham força. 

Em 2026 não foi diferente: entre maio e agosto, a Serasa registrou 19,7 milhões de acordos de renegociação, 36% a mais do que no mesmo período de 2025. Foi isso que fez o crescimento dos negativados desacelerar para apenas 0,06% em agosto, o menor do ano.

O problema é que desacelerar não é reduzir. A própria Serasa reconhece que o Desenrola Brasil 2.0 diminuiu a velocidade de crescimento da inadimplência, mas não reduziu o total de negativados. O estoque continua lá, esperando o primeiro trimestre.

E o primeiro trimestre de 2027 começa com três pressões conhecidas:

  • O calendário de sempre: IPVA, IPTU, matrícula e material escolar disputam o mesmo orçamento que precisaria honrar os acordos fechados em 2026.
  • O custo do dinheiro: Analistas projetam alta de 60 a 100 pontos-base nos juros futuros de médio e longo prazo já na primeira semana pós-eleição. Funding mais caro aperta limites e cut-offs, e quem rolava dívida perde a saída.
  • Menos espaço para a Selic cair: Alguns economistas preveem 2027 com câmbio mais desvalorizado, inflação mais pressionada e menos espaço para cortes. Antes da eleição, o Focus já apontava Selic de 12% e PIB de apenas 1,43% para o ano que vem.

Juro alto por mais tempo com crescimento baixo é exatamente a combinação que transforma acordo em quebra de promessa.

A diferença de 2027: o ponto de partida

Se o padrão se repetir, a grande diferença está de onde partimos. Em 2015, a carteira começou o ano com 54 milhões de negativados. Em 2023, com cerca de 70 milhões. Em 2027, vamos começar perto de 84 milhões.

Em dez anos, segundo a própria Serasa, o número de brasileiros inadimplentes cresceu 38%. Não se trata de uma oscilação de ciclo e sim de um patamar estrutural, sobre o qual um ano pós-eleitoral típico empilha mais alguns milhões de inadimplentes na carteira.

E há um detalhe que pouca gente comenta: boa parte dessa melhora de 2026 é baseada em acordos. Acordo é uma promessa, não um pagamento de fato. Quem trabalha com cobrança sabe que a safra de renegociação tem comportamento próprio, e que ela costuma mostrar a cara de seis a nove meses depois. Ou seja, exatamente no primeiro semestre de 2027.

O que isso muda na operação de cobrança

Não adianta esperar a fotografia de março de 2027 para reagir. Algumas decisões precisam estar tomadas já em novembro:

  • Trate a safra de acordos de 2026 como uma carteira à parte. Meça a taxa de quebra por canal, por desconto concedido e por mês de fechamento. Se você não separa essa safra, vai confundir quebra de acordo com inadimplência nova.
  • Reforce a régua para o primeiro trimestre. Janeiro a março precisa de contato preventivo antes do vencimento, não depois. O cliente que vai quebrar o acordo em fevereiro está decidindo isso em janeiro.
  • Prepare capacidade para novas rodadas de renegociação. Se houver novas edições de programas públicos, a demanda chega em onda. Defina antes quais faixas de desconto preservam valor e quais só trocam inadimplência de lugar.
  • Rode cenários de stress com a curva de juros, não com a Selic. A decisão do Copom de novembro importa, mas o que define o custo do crédito no ano que vem é a curva. Simule o impacto de 100 pontos-base a mais no funding sobre concessão e rolagem.
  • Não esqueça o PJ. Com 9,3 milhões de empresas negativadas, fornecedores e pequenos negócios vão disputar o caixa do mesmo cliente. Prioridade de pagamento será o ativo mais valioso da sua estratégia.
  • Acompanhe as linhas novas de perto. O consignado privado cresceu rápido e ninguém sabe ainda onde a inadimplência dele vai estabilizar. Linha nova em ano de juro alto é onde a surpresa costuma aparecer.

Mas, por outro lado

Há fatores que podem quebrar o padrão. A Selic está em ciclo de cortes desde março e hoje está em 13,75%, abaixo dos 15% do início do ano. Se o ajuste fiscal vier crível nos primeiros meses do novo mandato, a curva de juros pode devolver parte do estresse rapidamente. 

Vários analistas lembram que o comportamento dos ativos em 2027 vai depender muito mais das sinalizações da equipe econômica do que do resultado das urnas em si.

A continuidade também tem um lado prático para quem cobra: os programas de renegociação já existem, as regras são conhecidas e os credores sabem operar dentro delas. Não haverá a curva de aprendizado de um desenho totalmente novo.

Por fim, a onda de acordos de 2026 mostra que o devedor brasileiro quer negociar quando encontra condição. Isso é uma oportunidade de recuperação para quem estiver preparado, e não apenas um risco.

Mas nenhum desses fatores muda o ponto de partida. Eles podem amortecer a pancada, mas não evitam que ela venha.

O que fica para os próximos meses

Eleição é sempre um ponto de inflexão na narrativa. Para quem trabalha com crédito e cobrança, ela deveria ser um ponto de inflexão no planejamento. O mercado vai passar as próximas semanas especulando sobre nomes e medidas, mas a sua carteira não vai poder ter esse luxo de esperar.

O primeiro semestre de 2027 vai separar quem tratou 2026 como ano de alívio de quem usou 2026 para preparar a régua. Os números do passado não garantem o futuro, mas raramente erram a direção. E a direção, nos últimos três ciclos, foi uma só.

Se você quer estruturar sua operação para esse cenário, a Universidade Tabelando e o programa G360 têm trilhas práticas sobre gestão de safras de acordo, régua de cobrança e leitura de indicadores de risco. É o tipo de preparação que não dá para improvisar em março.

Eduardo Tambellini
Eduardo Tambellini
Artigos: 5