Apesar de, no período de um ano (agosto de 2025 a agosto de 2026), a Selic ter caído 1,25 ponto percentual, o mesmo não pôde ser verificado nos juros do crédito para pessoas físicas (que subiu) e na inadimplência do Brasil, que ultrapassou os 6%.
Apesar de conflitantes, os dados de agosto do Banco Central revelam uma realidade que tende a ser muito relevante para o setor do crédito e cobrança; e é isso que veremos a partir daqui, neste artigo.
Antes dos números, um recado
Quem acompanha este espaço deve ter percebido que o blog ficou fora do ar por um tempo. Há um motivo para isso: tivemos um problema técnico na nossa plataforma, e a decisão foi não voltar de qualquer jeito.
Usamos esse tempo para reconstruir a estrutura e investir em segurança. Afinal, um conteúdo que fala de risco toda semana não pode tratar o próprio risco como um mero detalhe.
Agora, voltamos com a mesma proposta de sempre: dado fresquinhos na mesa, leitura honesta da conjuntura e, claro, uma pitada de incômodo. E não há forma melhor de retomar do que olhando para o termômetro do mercado, não é mesmo?
Enquanto o blog esteve parado, o Radar Tabelando seguiu funcionando. Vale reforçar: o Radar é atualizado sempre que o Banco Central, a CNC e a Fecomercio divulgam novas informações. São mais de 460 séries de crédito: carteira, concessão, juros, prazo, inadimplência e spread, por segmento e modalidade, desde 2011, além dos indicadores macro e de endividamento das famílias. A atualização mais recente é de 29 de setembro, com os dados de agosto de 2026.
Inadimplência no Brasil: 5,04% e subindo
Os dados brutos são: a inadimplência acima de 90 dias do sistema financeiro chegou a 5,04% em agosto, alta de 0,16 ponto no mês e de 0,90 ponto em doze meses (era 4,14% em agosto de 2025). Na pessoa física, o número já é 6,03% — 1,11 ponto acima de um ano atrás. Na pessoa jurídica, 3,35%, com uma alta mais moderada, de 0,50 ponto.
E aqui já temos a “pimenta” deste retorno: tudo isso acontece com a Selic em queda. A meta saiu de 15% para 13,75% ao ano em doze meses. Pela lógica do manual, juro básico menor deveria aliviar o devedor. Não aliviou. A taxa média do crédito à pessoa física subiu de 36,60% para 38,18% ao ano no mesmo período, e o spread bancário da pessoa física avançou 1,50 ponto, para 27,48.
Já escrevi aqui antes que o corte da Selic não chega ao boleto. Mas os dados de agosto mostram algo bem pior: o boleto agora ficou mais caro. O banco está precificando o risco que vê na carteira, e o risco que ele vê é real.
| Indicador (dados de 08/2026) | Ago/2025 | Ago/2026 | Variação 12m |
| Inadimplência 90+ — mercado total | 4,14% | 5,04% | +0,90 p.p. |
| Inadimplência 90+ — Pessoa Física | 4,92% | 6,03% | +1,11 p.p. |
| Inadimplência 90+ — Pessoa Jurídica | 2,85% | 3,35% | +0,50 p.p. |
| Inadimplência 15–90 — Pessoa Física | 5,55% | 6,15% | +0,60 p.p. |
| Cartão rotativo PF — 90+ | 60,49% | 66,15% | +5,66 p.p. |
| Crédito pessoal não consignado — 90+ | 9,13% | 10,95% | +1,82 p.p. |
| Aquisição de veículos PF — 90+ | 5,50% | 6,57% | +1,07 p.p. |
| Consignado INSS — 90+ | 1,80% | 2,22% | +0,42 p.p. |
| Crédito rural PF — 90+ | 5,23% | 9,69% | +4,46 p.p. |
| Taxa média de juros PF (% a.a.) | 36,60% | 38,18% | +1,58 p.p. |
| Spread bancário PF (p.p.) | 25,98 | 27,48 | +1,50 p.p. |
| Meta Selic (set/25 → set/26) | 15,00% | 13,75% | −1,25 p.p. |
Fonte: Banco Central do Brasil (SGS), consolidado no Radar Tabelando — atualização de 29/09/2026.
Onde dói de verdade na carteira de cobrança?
O agregado de dados esconde uma dispersão por diversas modalidades de dívida. Quando expandimos essas informações, o retrato fica mais nítido. Acompanhe por item:
- Cartão rotativo: 66,15% da carteira com atraso acima de 90 dias, alta de 5,66 pontos em um ano. O cenário aqui é que dois em cada três reais do rotativo estão em atraso grave, o que fez o rotativo deixar de ser produto de crédito e virou porta de entrada da cobrança.
- Crédito pessoal não consignado: 10,95%, +1,82 ponto. É o crédito sem garantia e sem desconto em folha, e é onde o aperto da renda aparece primeiro.
- Veículos: 6,57%, +1,07 ponto em doze meses. Trata-se de um produto com garantia real, historicamente comportado, que agora está entrando no radar da inadimplência.
- Consignado INSS: 2,22%. Segue baixo, mas subiu 0,42 ponto. Ou seja: nem a modalidade mais protegida do sistema está imune aos efeitos conjunturais.
- Crédito rural da pessoa física: 9,69%, contra 5,23% um ano atrás, quase o dobro. Na pessoa jurídica rural, o índice segue abaixo de 1%. Aqui, o estresse do agro fica por conta do produtor pessoa física.
Um sinal de alerta extra vem da faixa de 15 a 90 dias na pessoa física: 6,15%, estável no mês, mas 0,60 ponto acima de um ano atrás. É o estoque que alimenta o 90+ dos próximos meses. Não há, por enquanto, sinal de alívio vindo de trás.
A inadimplência nas famílias brasileiras
A PEIC nacional da CNC, também consolidada no Radar Tabelando, fecha o quadro. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas, o que corresponde a 3,2 pontos a mais que um ano antes. 29,9% tinham contas em atraso e 12,5% declaravam não ter condições de pagar. A renda comprometida com dívidas ficou em 29,5%, e o tempo médio de atraso ficou em 65 dias. O cartão de crédito está presente em 85,1% das dívidas.
A conclusão aqui é que o mesmo instrumento que lidera a inadimplência no Banco Central é o que está em quase toda casa endividada no Brasil. Nada disso, aliás, é coincidência, e sim as consequências da concentração de risco.
Operação de cobrança: o que muda nesse cenário?
- Rever a régua do cartão de crédito: Com o rotativo nesse patamar, esperar o atraso grave para agir é aceitar a perda. Aqui, a atuação precisa começar no primeiro vencimento perdido.
- Monitorar a faixa 15–90 como indicador antecedente: É esta faixa que diz quanto volume vai chegar ao 90+ nos próximos ciclos. A orientação aqui é planejar capacidade de equipe e de canal com base nela.
- Segmentar veículos com outro olhar: A lição aprendida aqui é que garantia real não substitui leitura de comportamento. O aumento de 1 ponto em doze meses pede revisão de estratégia antes de partir para a retomada do bem.
- Tratar o produtor rural PF como perfil próprio: Fluxo de caixa sazonal, safra e preço de commodity exigem calendário de negociação diferente do varejo urbano.
- Usar dado público como benchmark: Antes de comemorar ou se assustar com a própria carteira, compare com o mercado. É para isso que o Radar Tabelando existe.
Mas, por outro lado
Como sempre, seria desonesto ler só o lado ruim da situação. O desemprego segue em 5,3%, apesar de sabemos que o indicador não retrata a situação de forma fiel, mas é o indicador que sempre tivemos, e o rendimento médio real está em R$ 3.644, estável.
O IPCA acumulado em doze meses recuou para 4,22%, o que devolve algum poder de compra à população. Na pessoa jurídica, a inadimplência subiu pouco no mês. E há um dado que merece atenção positiva: a inadimplência do crédito pessoal vinculado a renegociação caiu de 20,64% para 18,42% em doze meses, sinal de que acordos mais bem estruturados estão parando de pé por mais tempo.
Mas é justamente isso que torna o quadro inquietante. Inadimplência subindo com inflação cedendo e Selic em queda não é sintoma de choque de conjuntura, mas provavelmente um sinal de endividamento estrutural, situação em que a família brasileira está trabalhando, recebendo, e mesmo assim não consegue parar os boletos e fechar a conta do mês.
Para onde olhar daqui para a frente
Os próximos meses vão nos ajudar a testar se o ciclo de cortes da Selic finalmente chega ao custo do crédito ou se os bancos seguirão alargando o spread para compensar o risco.
Para quem está na cobrança, a recomendação é simples: não faça o planejamento do último trimestre esperando alívio. Em vez disso, planeje para um volume maior, um devedor mais endividado e uma negociação mais difícil.
Não é demais salientar: cada nova divulgação do Banco Central e da CNC entra no Radar Tabelando assim que é publicada. Acompanhe por lá e volte aqui, pois a partir de agora, a análise retoma o ritmo!
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