Nas últimas semanas, todo mundo que acompanha as estatísticas de crédito comemorou os números do Novo Desenrola Brasil: mais de R$ 25 bilhões em dívidas atrasadas já renegociadas desde maio. Some a isso o Desenrola Adimplentes, criado em junho com Banco do Brasil e Caixa para trocar dívida cara por dívida mais barata, e a narrativa fica bonita: o governo destravou o crédito, as carteiras estão sendo limpas, o problema está sendo resolvido e a promessa seria de um mercado de crédito no 3T26 mais saudável e com menos restrições.
Só que nem os próprios bancões não compram essa história. E é nesse ponto que mora a “pimenta” do artigo desta semana: como o mercado de crédito no 3T26 vai influenciar nas operações de cobrança?
O que a PTC do Banco Central revela sobre o mercado de crédito no 3T26
A Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC), do Banco Central, funciona como termômetro do humor das instituições financeiras. Não se trata de uma simples projeção do BC, mas sim da própria avaliação dos bancos sobre oferta, demanda e qualidade da carteira.
O retrato do 2T26 pelo PTC já mostrava oferta mais restritiva na maioria dos segmentos, com demanda resiliente e, em alguns casos, mais forte ainda.
Para o 3T26, a leitura dos bancos é direta: inadimplência “em linha com as expectativas” no trimestre anterior, seguindo como um dos principais fatores de restrição de oferta, com continuidade da deterioração, só que em ritmo menor do que nos meses anteriores.
Ou seja, a inadimplência não vai parar de piorar; ela vai piorar mais devagar. Para quem trabalha com portfólio e projeção de perda, essa é uma diferença enorme, e é exatamente o tipo de nuance que se perde quando a manchete dos jornais só fala em “alívio” trazido pela renegociação.
Onde a dor é mais aguda: PJ, grandes empresas e funding da pessoa física
A pesquisa detalha o cenário por segmento, e nesse sentido vale a pena olhar com calma — afinal, a régua de cobrança não é igual para todo mundo.
- MPMEs (micro, pequenas e médias empresas): A oferta seguiu apertada no 2T26, com leve desaceleração ajudada por linhas de fomento. Para o 3T26, os bancos ainda esperam restrições, puxadsa principalmente pela inadimplência. A concorrência entre as instituições ameniza, mas não resolve a questão.
- Grandes empresas: A torneira secou no 2T26 e deve continuar fechada no 3T26, pressionada pela inadimplência e pelo cenário macro doméstico.
- Pessoa física (consumo): O custo e a disponibilidade de funding, combinados com menor tolerância a risco, devem aumentar a restrição de oferta. O que segura a demanda é o mercado de trabalho: emprego e renda ainda sustentam o consumo, mas o comprometimento de renda das famílias limita o apetite dos bancos.
- Crédito habitacional: Foi a exceção no 2T26 em termos de estabilidade, mas mesmo aí os bancos já sinalizam algum aperto no 3T26, citando menor tolerância a risco e maior expectativa de inadimplência.
O pano de fundo corporativo reforça esse quadro geral. Casos como o da Casas Bahia, cuja dívida líquida de R$ 1,2 bilhão virou um passivo de R$ 17 bilhões na recuperação judicial, ou o pedido recente da Aeris por 60 dias de blindagem contra credores para reorganizar R$ 1,94 bilhão em dívida, não são exceções; são, na verdade, sintomas do mesmo aperto que a PTC está descrevendo.
O papel do Desenrola
Aqui está o ponto que costuma passar batido: o Desenrola atua na ponta de saída, renegociando o que já está estourado. Ele não muda o motivo pelo qual a inadimplência continua surgindo: juros altos, renda comprometida e, agora, um ano eleitoral em que os próprios executivos de bancos já citam como fator adicional de cautela na concessão.
Um programa de renegociação bem-sucedido certamente melhora a foto da carteira no balanço do trimestre; mas, se a régua de originação continua entregando operações para clientes com capacidade de pagamento apertada, você está apenas trocando o estoque de inadimplentes, e não reduzindo o fluxo de entrada.
Como isso influencia a operação de cobrança?
Eu, que sou uma pessoa que sempre me preocupo com a prática, com o chão de fábrica, trago algumas reflexões que vale você entender:
- Não espere alívio estrutural na esteira que chega para tratativa no 3T26 e no 4T26. O volume deve continuar em ritmo de alta, ainda que mais lento.
- Reforce a segmentação por capacidade de pagamento antes da negociação, especialmente em carteiras PJ de MPMEs, onde o aperto de oferta é mais agressivo e o risco de reincidência pós-acordo é maior.
- Monitore de perto os clientes que vieram do Desenrola. Afinal, dívida renegociada não é dívida resolvida: é dívida com uma nova data de vencimento. O histórico do setor mostra que uma parcela relevante volta a atrasar.
- Prepare a operação para um cenário binário: originação mais seletiva reduzindo o volume de carteira nova, mas com o estoque de dívida vencida ainda crescendo, porém a taxas menores.
- Em carteiras PF, aproveite que emprego e renda seguem dando algum fôlego. É uma ótima janela de oportunidade para negociações consensuais, antes que o cenário eleitoral e o custo do funding piorem as condições de oferta.
Mas, por outro lado
Aqui, vale também reconhecer o outro lado da moeda. Os R$ 25,51 bilhões já renegociados pelo Desenrola são reais e representam alívio de caixa concreto para milhões de famílias. Isso tem efeito direto na taxa de resposta e na propensão a negociar de quem está na régua.
Além disso, a desaceleração no ritmo de deterioração, mesmo que não seja reversão, já é uma mudança de tendência em relação ao pico observado nos trimestres anteriores. E o mercado de trabalho aquecido continua sendo um amortecedor real, não apenas retórico, para a inadimplência de pessoa física. Não é hora de pânico! É hora de calibrar a régua para um cenário de melhora lenta, sem viradas rápidas.
Se você lidera uma operação de cobrança e quer entender como ajustar sua régua para esse cenário de deterioração mais lenta, mas ainda ativa, a comunidade G360 é o lugar certo para trocar essas estratégias com quem está vivendo o mesmo apertado no dia a dia. Venha conversar com a gente!




